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DETONANDO O ENEM (6)

Tri o quê?

Tri o quê?

Porto Alegre (TRI esquisito) – Hora do gabarito, divulgado ontem. Todos querem saber quantos acertos (e erros) tiveram. Mas, ai, ai, ai. Todos vão ter que esperar (roer as unhas) até… sabe-se lá quando pra saber sua pontuação. Astrólogos dizem que em dezembro ou janeiro os candidatos saberão exatamente como foram nas provas.

Dois pontos em que o ENEM merece apanhar, levar uma surra:

  1. Não haver cronograma com a data exata de divulgação os resultados finais;
  2. O uso da enigmática Teoria de Resposta ao Item (TRI).

Por partes.

Cronograma

Super coerente com toda lógica e mística que envolve o exame não haver uma data para publicizar a pontuação dos candidatos.  E um excelente exercício de tortura, de sadismo, submetendo nossa juventude a uma incerteza desnecessária.

Alguns dirão: “Ah, mas eles precisam aprender a controlar suas emoções”. Sim, e não faltam oportunidades para adolescentes e jovens experimentarem tais sentimentos em suas vidas cotidianas (seus babacas!). Então: pra mim isso é desumano, desleal, sórdido, torpe – to gastando o verbo de montão e ainda não consigo expressar toda minha indignação com tamanho desrespeito com nossa juventude (pedagogia da tortura?).

Sim, com uns 7 milhões de provas pra corrigir pode ficar difícil precisar exatamente as dificuldades do processo. ok pra isso. Mas não é a primeira vez que a prova é aplicada, sendo possível estimar bem o andar da carruagem. Aí coloca uma margem de erro, superfatura a data e publica. Se quiser ensebar um pouco bota uma cláusula dizendo que o INEP pode alterar o cronograma em caso de hecatombes, blablabla.

TRI

A candidata “Sabidona” acertou 150 questões “objetivas”. O candidato “Afiado” acertou 160. Logo… logo nada! Quem disser que tirou mais pontos, hoje, está mentindo. Ou pior, não tem a mínima ideia de como funciona a prova – quer tentar entender clica aqui.

Isso porque a metodologia utilizada não é a clássica em que cada acerto vale uma pontuação já conhecida. E onde questões costumam ter a mesma pontuação. Ao contrário! No ENEM os candidatos não sabem quais os valores das questões. Mas saibam: as questões são categorizadas em diferentes níveis de dificuldade – e não valerão necessariamente a mesma coisa para candidatos diferentes. Esotérico, não?!

Yes, o desempenho geral do candidato é contabilizado de modo que, por exemplo, errar questões consideradas muito fáceis e, ao mesmo tempo, acertar questões tidas como muito difíceis, podem alterar o peso delas na pontuação final. Isso porque a TRI tem um mecanismo pra se defender dos famosos chutes. Claro, a dita metodologia não anula o acerto (por chute ou não) de uma questão dificílima em um candidato que errou várias fáceis. Mas o valor da dificílima não será o mesmo de outro candidato que acertou também as fáceis… Russo ou mandarim é mais compreensível que isso, né?!

Mas quero afirmar que eu considero o TRI uma excelente metodologia. Muuuuito melhor que a lógica tradicional, zilhões de vezes mais inteligente, com vantagens enormes pra medir conhecimentos, comparar candidatos, fazer análises entre diferentes edições etc.

E ainda assim reforço que usar essa metodologia é uma fragilidade colossal do ENEM. Por quê? Porque ninguém conhece a TRI. Porque ninguém entende esse troço. Porque mesmo tentando explicar ainda fica uma interrogação colossal na testa de quase todo mundo. Duvida? leia o artigo didático de 3 pagininhas aqui.

Porque, no final das contas, as questões ditas objetivas parecem subjetivas pra cacete (ops, perdão, escapou). Há senões demais. É preciso crer na metodologia, Faz-se necessário um ato de fé pra achar que o resultado é justo. E nesse campo movediço, a sociedade pode cogitar que a maracutaia impera. Ou que Deus é que não ajudou. Ou qualquer outra teoria da conspiração, todas batendo contra a transparência do processo avaliativo.

Resumindo: a técnica é boa (acreditem em mim! Rezem por mim, chorem por mim…) mas ela é alienígena, ininteligível. E isso mina a sua legitimidade, o que é grave. Do ponto de vista sociopolítico gera um vácuo, algo que só iluminados compreendem.

Uma prova que distribui vagas universitárias, bolsas, diplomas de ensino médio, empréstimo bancário subsidiado (dito FIES), cura frieira (ah não? esta última ainda não é uma função do ENEM… ainda) não pode ser incompreensível. É muito arriscado, gera suspeição, é deseducativo, é despolitizante.

Mas essas são só minhas opiniões. Não acreditem em mim. Acreditem no ENEM. Amém!!!

DETONANDO O ENEM (5)

Tema para redação: 2,2 milhões de vagas ociosas

Tema para redação: 2,3 milhões de vagas ociosas

Porto Alegre  (uma prova de redação) – Como hoje é dia nacional da especulação acerca dos critérios de avaliação que serão cobrados na análise dos textos dos candidatos vou entrar no clima e listar os meus para o seguinte tema: por que sobram 2,3 milhões de vagas ociosas no ensino superior privado do Brasil?

A redação deveria abordar informações básicas sobre a educação superior no Brasil, suas principais políticas e lógicas de funcionamento, utilizando inclusive estatísticas elementares disponíveis no site do mesmo INEP que faz o ENEM (as últimas são de 2013). Assim, um bom texto deveria apontar alguns dos 13 itens abaixo (o número é uma singela homenagem):

  1. A educação superior de nosso país é uma das mais privatizadas do mundo;
  2. O setor público atende apenas cerca de 1/4 dos estudantes, estando a ampla maioria nas privadas;
  3. Esta pequena proporção da intervenção estatal não é casual e serve aos interesses de quem lucra vendendo educação, gerando pouca concorrência;
  4. As instituições privadas oferecem aproximadamente 4,5 milhões de vagas para ingressantes anualmente;
  5. Porém, destas, apenas 2,2 milhões vão ser ocupadas por efetivamente;
  6. Logo, mais da metade das vagas privadas ficarão ociosas (2,3 milhões);
  7. Dois dos fatores que ajudam a entender tal descalabro: o Governo Federal tem sido, por décadas, permissivo com os privados, liberando as autorizações para abrirem vagas; o problema é que nosso país é desigual demais e a maioria do povo não tem dinheiro pra pagar mensalidades;
  8. A situação só não é pior porque o Governo Federal é uma mãe (e uma família inteira) para o setor privado;
  9. As tetas do Estado brasileiro bancam FIES, Prouni e abatimento de imposto de renda que garantem milhares de matrículas nas privadas;
  10. O ENEM é utilizado como critério de seleção para alguns dos mimos anteriores para a iniciativa privada – logo, esta sequer precisa se preocupar em avaliar seus clientes-alunos;
  11. Os empresários e mercenários da educação são ingratos, pois não poupam os governos do PT, os quais criaram o Prouni e investiram no FIES como nunca antes na história desse país;
  12. O Ministério da Educação gasta milhões de reais com propaganda em rádio e televisão pra divulgar o ENEM, falando de todos os benefícios que ele aporta à Pátria Educadora, mas nunca divulgou pelos mesmos meios a situação da educação superior brasileira;
  13. Logo, você não sabia de alguns (ou muitos) dos pontos listados acima e fez o ENEM disputando um jogo que você não conhece direito, mas que bota nas tuas costas o peso de vencer e ainda se posta como justo, democrático, fonte eterna de oportunidades etc.

Tá bom assim? Acha que vai tirar uma boa nota?

Dado que as respostas, contatos e participações foram grandes neste fim de semana – e que eu fiz promessas que ainda não consegui cumprir – seguirei batendo no ENEM pelos próximos dias.

DETONANDO O ENEM (2)

Enem e a inclusão...

Enem e a inclusão…

Porto Alegre (Semvagolândia, a metrópole do ENEM) – Essa prova atenta contra a inteligência do país. Afirmar que ela democratiza a Educação Superior é uma piada de mau gosto. Dados bem simples comprovam o contrário. E os dados não são meus, são do governo, do MEC.

O mesmo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) que organiza o ENEM também faz Censo da Educação Superior. Ou seja, levanta uma montanha de informações, as quais deveriam servir pra gente conhecer a realidade… Pois, pois…

Parte dos dados do referido Censo ficam acessíveis através das Sinopses Estatísticas da Educação Superior – ver aqui. A última disponível é a de 2013. Os números atuais devem ser diferentes, mas a ordem de grandeza deve ser bem parecida, mantendo o raciocínio.

Segundo o INEP, que é um órgão do Ministério da Educação, podemos ver que o Brasil teve cerca de 2,7 milhões de ingressantes em cursos superiores naquele ano. Ops, continha rápida: 7,7 milhões fazendo ENEM e só 2,7 vão se matricular, logo, 5 milhões vão ficar sem sala de aula no ano que vem.

Desenhando: de cada 10 candidatos do ENEM, 7 não estarão matriculados em nenhum curso superior em 2016. Assim, a cidade de Semvagolândia (ver aqui) se torna a terceira metrópole do país, menor apenas que São Paulo e Rio de Janeiro!

Irônico o ENEM ser visto (e vendido) como um instrumento de inclusão na Educação Superior quando ele é justamente o oposto: a ferramenta que exclui milhões!!!