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RANKING (IN)CONVENIENTE

E a melhor é pública. Mas isso não deve ser dito...

E a melhor é pública. Mas isso não deve ser dito…

Porto Alegre (recomeçou a temporada de bobagens) – É só sair o resultado do ENEM pro mesmo lero-lero voltar. Parece que parte da mídia só requenta notícias. E com a habitual falta de isenção. As chamadas da “notícia” no G1 RS dialogam bem com o senso-comum – ver aqui. Informa que das 100 melhores escolas gaúchas a maioria é privada. O leitor talvez fique satisfeito e já pode sair praguejando: “Tá vendo, o Poder Público é corrupto, ineficiente etc.”

Mas é só ler o que se segue na matéria e a manchete poderia ser outra, por exemplo: “A melhor escola do RS é pública!” Mais: é federal (Colégio Politécnico da UFSM – Santa Maria), com dinheiro vindo direto de Brasília, para alguns um antro de malfeitores, incompetentes…

E para os amantes das competições, fãs da concorrência, adoradores dos pódios, daquele negócio de dar medalhas de ouro, prata e bronze pros 3 bambambans (é assim que escreve?), entre as escolas gaúchas haveria apenas um lugar para as escolas privadas. Ou seja, pros que acreditam em rankings (mesmo!)  a manchete (sensacionalista?) poderia ser: “Privadas gaúchas levam pau de públicas no ENEM”.

O Ministério da Educação segue fornecendo munição pra uso e abuso de quem quiser – inclusive eu. E não vale dizer que isso é coisa de governo golpista, da direita… O PT azeitou a máquina das avaliações em larga escala e anabolizou junto à imprensa seu poderio de mostrar serviço, importando-se bem pouco com a construção de rankings, fortalecendo a meritocracia, dando holofotes ao mercado educacional.

Por que é tão fundamental dizer quem é melhor? Qual o motivo de buscarmos quantificar critérios pra milimetrar um fenômeno social, no caso, a educação? A busca insana por racionalidade pode tornar-se estúpida, um verdadeiro tiro no pé. Voltemos ao G1 RS.

O segundo colocado no estado (Colégio Sinodal – São Leopoldo – privado)  fez 653,20 de média nas provas objetivas. Já o dono do terceiro posto (Colégio Tiradentes – Porto Alegre – estadual) pontuou em 652,79 no mesmo critério. Bem, quer dizer que o Sinodal é melhor que o Tiradentes?! Por 0,41 pontos numa escala de mais de 600… Pode gargalhar!!! Não existe margem de erro nesse troço? Quem é o estatístico que respalda isso? Ou ainda, qual a “receita” (a direita adooora receitas – coisas pra seguir sem pensar) pedagógica do Sinodal pra ser 0,41 pontos superior ao Tiradentes? É de chorar, tamanha a tosquice (esta não existe, mas o povo fala, entende, então eu deixo).

Olha, dava pra ficar horas descendo o cacete no ENEM e nas torturas que os dados sofrem pelos usuários. Mas encerro com apenas mais um tabefe (juro!). Os idólatras da meritocracia ENEMziana vivem na estratosfera, num universo paralelo, pois ignoram solenemente a existência dos cursinhos. Em miúdos: quem disse que a nota deve ser creditada exclusivamente aos bons serviços do Politécnico da UFSM, do Sinodal e do Tiradentes? Nenhum de seus alunos fez cursinho pré-vestibular (agora rebatizados de Pré-ENEM)??? E atenção, nada contra estas três instituições em específico, pois o raciocínio vale pra todas as demais. Também não defendo os cursinhos, mas eles existem, e não podemos fingir o contrário.

Pra quem não me conhece: acho o ENEM uma enorme estupidez, um desperdício de dinheiro público, um desserviço para o debate sobre qualidade do ensino. Acredito que rankings educacionais servem pra muito pouco de positivo e pra coisa demais de negativo. Deveríamos investir mais dinheiro e energia pra gerar colaboração, solidariedade, condições físicas e materiais pras escolas, salários para professores etc e não botar isso tudo no ENEM e quetais.

PROFISSIONAL?

Única? Exclusiva? Inédita?

Única? Exclusiva? Inédita?

Porto Alegre (diferencial de mercado) – Deixa eu ver se entendi… Em nossa galáxia existe apenas uma “preparação profissional para o ENEM/UFRGS”. Ah, bom! E agora temos uma universidade com ENEM próprio, diferente dos demais ENEMs, o que exige um trabalho exclusivo.

E é um curso profissional. Profissionalizante? Claro, os estudantes fazem o cursinho uns 3 anos seguidos, logo, merecem um diplominha, não?! E se é profissional já não seria melhor ir direto pro “mercado” ganhar dinheiro ao invés de frequentar faculdade mais uns pares de anos?

Tudo límpido agora.

Maaassss, ainda me restou uma dúvida: onde são formados os profissionais que dão aulas na preparação profissional para o ENEM/UFRGS? Fiquei instigado a fazer uma conversão na carreira e dar aula em cursinho. Qual o nome dessa licenciatura? Tá na lista do Sisu?

DETONANDO O ENEM (6)

Tri o quê?

Tri o quê?

Porto Alegre (TRI esquisito) – Hora do gabarito, divulgado ontem. Todos querem saber quantos acertos (e erros) tiveram. Mas, ai, ai, ai. Todos vão ter que esperar (roer as unhas) até… sabe-se lá quando pra saber sua pontuação. Astrólogos dizem que em dezembro ou janeiro os candidatos saberão exatamente como foram nas provas.

Dois pontos em que o ENEM merece apanhar, levar uma surra:

  1. Não haver cronograma com a data exata de divulgação os resultados finais;
  2. O uso da enigmática Teoria de Resposta ao Item (TRI).

Por partes.

Cronograma

Super coerente com toda lógica e mística que envolve o exame não haver uma data para publicizar a pontuação dos candidatos.  E um excelente exercício de tortura, de sadismo, submetendo nossa juventude a uma incerteza desnecessária.

Alguns dirão: “Ah, mas eles precisam aprender a controlar suas emoções”. Sim, e não faltam oportunidades para adolescentes e jovens experimentarem tais sentimentos em suas vidas cotidianas (seus babacas!). Então: pra mim isso é desumano, desleal, sórdido, torpe – to gastando o verbo de montão e ainda não consigo expressar toda minha indignação com tamanho desrespeito com nossa juventude (pedagogia da tortura?).

Sim, com uns 7 milhões de provas pra corrigir pode ficar difícil precisar exatamente as dificuldades do processo. ok pra isso. Mas não é a primeira vez que a prova é aplicada, sendo possível estimar bem o andar da carruagem. Aí coloca uma margem de erro, superfatura a data e publica. Se quiser ensebar um pouco bota uma cláusula dizendo que o INEP pode alterar o cronograma em caso de hecatombes, blablabla.

TRI

A candidata “Sabidona” acertou 150 questões “objetivas”. O candidato “Afiado” acertou 160. Logo… logo nada! Quem disser que tirou mais pontos, hoje, está mentindo. Ou pior, não tem a mínima ideia de como funciona a prova – quer tentar entender clica aqui.

Isso porque a metodologia utilizada não é a clássica em que cada acerto vale uma pontuação já conhecida. E onde questões costumam ter a mesma pontuação. Ao contrário! No ENEM os candidatos não sabem quais os valores das questões. Mas saibam: as questões são categorizadas em diferentes níveis de dificuldade – e não valerão necessariamente a mesma coisa para candidatos diferentes. Esotérico, não?!

Yes, o desempenho geral do candidato é contabilizado de modo que, por exemplo, errar questões consideradas muito fáceis e, ao mesmo tempo, acertar questões tidas como muito difíceis, podem alterar o peso delas na pontuação final. Isso porque a TRI tem um mecanismo pra se defender dos famosos chutes. Claro, a dita metodologia não anula o acerto (por chute ou não) de uma questão dificílima em um candidato que errou várias fáceis. Mas o valor da dificílima não será o mesmo de outro candidato que acertou também as fáceis… Russo ou mandarim é mais compreensível que isso, né?!

Mas quero afirmar que eu considero o TRI uma excelente metodologia. Muuuuito melhor que a lógica tradicional, zilhões de vezes mais inteligente, com vantagens enormes pra medir conhecimentos, comparar candidatos, fazer análises entre diferentes edições etc.

E ainda assim reforço que usar essa metodologia é uma fragilidade colossal do ENEM. Por quê? Porque ninguém conhece a TRI. Porque ninguém entende esse troço. Porque mesmo tentando explicar ainda fica uma interrogação colossal na testa de quase todo mundo. Duvida? leia o artigo didático de 3 pagininhas aqui.

Porque, no final das contas, as questões ditas objetivas parecem subjetivas pra cacete (ops, perdão, escapou). Há senões demais. É preciso crer na metodologia, Faz-se necessário um ato de fé pra achar que o resultado é justo. E nesse campo movediço, a sociedade pode cogitar que a maracutaia impera. Ou que Deus é que não ajudou. Ou qualquer outra teoria da conspiração, todas batendo contra a transparência do processo avaliativo.

Resumindo: a técnica é boa (acreditem em mim! Rezem por mim, chorem por mim…) mas ela é alienígena, ininteligível. E isso mina a sua legitimidade, o que é grave. Do ponto de vista sociopolítico gera um vácuo, algo que só iluminados compreendem.

Uma prova que distribui vagas universitárias, bolsas, diplomas de ensino médio, empréstimo bancário subsidiado (dito FIES), cura frieira (ah não? esta última ainda não é uma função do ENEM… ainda) não pode ser incompreensível. É muito arriscado, gera suspeição, é deseducativo, é despolitizante.

Mas essas são só minhas opiniões. Não acreditem em mim. Acreditem no ENEM. Amém!!!

DETONANDO O ENEM (5)

Tema para redação: 2,2 milhões de vagas ociosas

Tema para redação: 2,3 milhões de vagas ociosas

Porto Alegre  (uma prova de redação) – Como hoje é dia nacional da especulação acerca dos critérios de avaliação que serão cobrados na análise dos textos dos candidatos vou entrar no clima e listar os meus para o seguinte tema: por que sobram 2,3 milhões de vagas ociosas no ensino superior privado do Brasil?

A redação deveria abordar informações básicas sobre a educação superior no Brasil, suas principais políticas e lógicas de funcionamento, utilizando inclusive estatísticas elementares disponíveis no site do mesmo INEP que faz o ENEM (as últimas são de 2013). Assim, um bom texto deveria apontar alguns dos 13 itens abaixo (o número é uma singela homenagem):

  1. A educação superior de nosso país é uma das mais privatizadas do mundo;
  2. O setor público atende apenas cerca de 1/4 dos estudantes, estando a ampla maioria nas privadas;
  3. Esta pequena proporção da intervenção estatal não é casual e serve aos interesses de quem lucra vendendo educação, gerando pouca concorrência;
  4. As instituições privadas oferecem aproximadamente 4,5 milhões de vagas para ingressantes anualmente;
  5. Porém, destas, apenas 2,2 milhões vão ser ocupadas por efetivamente;
  6. Logo, mais da metade das vagas privadas ficarão ociosas (2,3 milhões);
  7. Dois dos fatores que ajudam a entender tal descalabro: o Governo Federal tem sido, por décadas, permissivo com os privados, liberando as autorizações para abrirem vagas; o problema é que nosso país é desigual demais e a maioria do povo não tem dinheiro pra pagar mensalidades;
  8. A situação só não é pior porque o Governo Federal é uma mãe (e uma família inteira) para o setor privado;
  9. As tetas do Estado brasileiro bancam FIES, Prouni e abatimento de imposto de renda que garantem milhares de matrículas nas privadas;
  10. O ENEM é utilizado como critério de seleção para alguns dos mimos anteriores para a iniciativa privada – logo, esta sequer precisa se preocupar em avaliar seus clientes-alunos;
  11. Os empresários e mercenários da educação são ingratos, pois não poupam os governos do PT, os quais criaram o Prouni e investiram no FIES como nunca antes na história desse país;
  12. O Ministério da Educação gasta milhões de reais com propaganda em rádio e televisão pra divulgar o ENEM, falando de todos os benefícios que ele aporta à Pátria Educadora, mas nunca divulgou pelos mesmos meios a situação da educação superior brasileira;
  13. Logo, você não sabia de alguns (ou muitos) dos pontos listados acima e fez o ENEM disputando um jogo que você não conhece direito, mas que bota nas tuas costas o peso de vencer e ainda se posta como justo, democrático, fonte eterna de oportunidades etc.

Tá bom assim? Acha que vai tirar uma boa nota?

Dado que as respostas, contatos e participações foram grandes neste fim de semana – e que eu fiz promessas que ainda não consegui cumprir – seguirei batendo no ENEM pelos próximos dias.

DETONANDO O ENEM (4)

Os candidatos são melhores que o ENEM

Os candidatos são melhores que o ENEM

Porto Alegre (carta aos candidatos) – O ENEM não te avalia. Ele tenta medir alguns aspectos da tua vida – e ignora muitos outros.

Mesmo se for tratar apenas do que você aprendeu na escola o ENEM é restrito. Por exemplo, você teve aulas de educação física, não?! E isso pode ter sido muito importante pro teu desenvolvimento, pra tua saúde, pras tuas relações. Você aprendeu sobre o teu corpo, testou habilidades, teve contato com regras e lógicas diferentes, trabalhou em coletivos etc. O ENEM não avalia nada disso. Mas isso também é você.

E teve também educação artística ou congêneres. Você pode ter tido contato com desenho, pintura, escultura, teatro, dança, música e mais. Esses aspectos podem ser essenciais pra tua identidade, pra tua sensibilidade, pra como você se relaciona com o mundo. Mas o ENEM tá se lixando pra isso.

Por outro lado nós aprendemos diversas outras coisas também pra fora da escola. Nós fazemos e vivemos experiências nem sempre abordadas nas salas de aula, mas que são fundamentais. O que dizer de solidariedade, companheirismo, respeito à diversidade? Bobagens? Então, o ENEM pode tranquilamente avaliar como magnífico um@ candidat@ egoísta, mesquinh@, incapaz de ajudar alguém que não seja el@ mesm@. E uma pessoa racista, homofóbica, machista, preconceituosa tem todas as condições de ser “campeã do ENEM”. Isso porque essa prova não tem estes valores como critério de avaliação. E ao fazer isso, por omissão, contribui para desfavorecer o trabalho destas questões na escola e na sociedade – um desserviço.

E pra te avaliar seria necessário considerar outras perspectivas, muitas delas mais profundas e que te definem – mesmo que o ENEM não queira. Participação política – partidária ou não. Você age para mudar a tua realidade e disputar o poder? Ou é um expectador? Você tem e preserva boas amizades? Ou é um ogro? Você tem suas crenças? Religião é algo especial na tua  existência? Note que você pode ter várias respostas para as questões anteriores. Mas é difícil negar que estes são aspectos valorizados por muita gente, por muitos grupos, por setores da sociedade. E impossível negar que o ENEM dá as costas para o que você é e faz nestes âmbitos.

Tudo numa frase: você é muito melhor que o ENEM.

Essa prova não te traduz, não define o que você é, não muda a tua vida. Ela pode ser importante pra algumas coisas, sim. Mas não deixe o ENEM te enquadrar. Não se reduza a ele. Não deixe ele te detonar.

Relaxa, vai na boa e mantenha a cabeça erguida frente a essa provinha. O ser humano é maior do que qualquer exame ou avaliação. Ainda não criaram um instrumento para medir a humanidade. Mas você faz parte dela – prove isso.

DETONANDO O ENEM (3)

Pública é bom e eu gosto

Pública é bom e eu gosto

Porto Alegre (gratuita, laica, de qualidade) – O sonho dourado dos candidatos do ENEM não é apenas uma vaga no ensino superior. É estudar em universidades públicas! Motivos vários,  alguns aqui: são gratuitas, têm status e, melhor de tudo, seus cursos são bem avaliados, gozando de qualidade.

Nesse grupo temos desde instituições que usam o ENEM como única forma de seleção passando por outras que utilizam essa prova como parte da nota / avaliação para o ingresso – com ou sem vestibular.

As instituições públicas podem ser federais, estaduais ou municipais. As federais estão presentes em todos os cantos do país, tendo reputação geralmente bem positiva (58% das matrículas públicas totais). As estaduais não são tão disseminadas por todo território nacional, havendo presença residual em algumas localidades. São super bem conceituadas em algumas unidades da federação, mas também mega precárias em outras (32% das matrículas). E as municipais são casos raros no Brasil – mas existem! (10%)

Pepino: o Brasil sofre de uma ultra privatização do ensino superior, logo, poucas vagas públicas (só 26% das matrículas totais). Em números: apenas cerca de 600 mil. Contas, continhas: 7,7 milhões de “eneiros” para 0,6 mi vagas. Isso significa que, na média, de cada 10 candidatos… nenhum vai entrar numa pública. Aumentando a lente: de cada 100 “eneiros” haverá vaga para… quase 8.

O ENEM não criou a privatização. Também não tem culpa da rede pública acanhada. Mas legitima essa realidade, não questionando-a. Pior, termina por culpabilizar os candidatos por seu fracasso, como se houvesse justiça social e igualdade de condições entre os concorrentes. Privatiza o caso, tratando a não obtenção de vaga como um problema individual. Esquiva-se de politizar a questão, fugindo de abordar nossa situação como um problema social e público!

DETONANDO O ENEM (2)

Enem e a inclusão...

Enem e a inclusão…

Porto Alegre (Semvagolândia, a metrópole do ENEM) – Essa prova atenta contra a inteligência do país. Afirmar que ela democratiza a Educação Superior é uma piada de mau gosto. Dados bem simples comprovam o contrário. E os dados não são meus, são do governo, do MEC.

O mesmo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) que organiza o ENEM também faz Censo da Educação Superior. Ou seja, levanta uma montanha de informações, as quais deveriam servir pra gente conhecer a realidade… Pois, pois…

Parte dos dados do referido Censo ficam acessíveis através das Sinopses Estatísticas da Educação Superior – ver aqui. A última disponível é a de 2013. Os números atuais devem ser diferentes, mas a ordem de grandeza deve ser bem parecida, mantendo o raciocínio.

Segundo o INEP, que é um órgão do Ministério da Educação, podemos ver que o Brasil teve cerca de 2,7 milhões de ingressantes em cursos superiores naquele ano. Ops, continha rápida: 7,7 milhões fazendo ENEM e só 2,7 vão se matricular, logo, 5 milhões vão ficar sem sala de aula no ano que vem.

Desenhando: de cada 10 candidatos do ENEM, 7 não estarão matriculados em nenhum curso superior em 2016. Assim, a cidade de Semvagolândia (ver aqui) se torna a terceira metrópole do país, menor apenas que São Paulo e Rio de Janeiro!

Irônico o ENEM ser visto (e vendido) como um instrumento de inclusão na Educação Superior quando ele é justamente o oposto: a ferramenta que exclui milhões!!!

 

DETONANDO O ENEM (1)

Quem saber das maravilhas do enem? www.mec.gov.br

Quer saber das maravilhas do Enem? www.mec.gov.br

Porto Alegre (lavagem cerebral…) – O dia da salvação está chegando: este é o esperado fim de semana do ENEM. No rádio e na TV não tem como escapar das propagandas do governo. Um puta saco…

Então, se você ainda não foi convertido à seita das avaliações miraculosas, se não reza pro Santo ENEM todas as noites é só ler/ouvir/ver qualquer veículo de comunicação e terá acesso a mil guias, milhão de dicas, zilhão de reportagens.

E eu daqui vou mandar meus torpedos pra dizer que o mundo não é cor de rosa. Serão algumas postagens durante sábado e domingo, logo, se não gostar do assunto ou de minhas ideias é simples: me esqueça, não entre aqui e nem no meu facebook.

Vamos lá: de cada 10 candidatos ao ENEM 4 certamente não estudarão no ensino superior em 2016. E não é por falta de capacidade, necessariamente. É que não há vagas para eles. São 7,7 milhões de inscritos no ENEM e cerca de 5 milhões de vagas oferecidas no país. Logo, 2,7 milhões ficarão fora da Educação Superior.

Esses “sem vaga”, se reunidos em uma cidade (Semvagolândia?), formariam o quinto município mais populoso do país, só perdendo em quantidade de habitantes para São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Brasília. Enfim, uma enormidade. Um mega desperdício de energia. Um show sádico para detonar estimas e egos de jovens. Estes, vítimas das propagandas enganosas e floridas do MEC…

 

ENEM AQUI

Aqui a info não está nas letrinhas

Aqui a info não está nas letrinhas

Porto Alegre (sinceridade é fundamental) – E vejam o que o MEC deixa (ab)usarem do ENEM… Taí mais um campeão gaúcho no Exame Nacional do Ensino Médio de 2014. Ops, mas não era outra escola, no outro outdoor? (veja abaixo e leia aqui) Sí, por supuesto.

Agora tá confuso?

Agora tá confuso?

Porém, é preciso ser justo: o Colégio Israelita Brasileiro também não está mentindo. Apenas usa outro critério, incluindo, além das questões ditas “objetivas”, a nota das redações. Ao que parece o povo desta escola está se saindo melhor na parte escrita… eles sobem no ranking.

israelita enem

Como no Rio Grande do Sul não é possível que nenhuma privada diga ser a melhor tendo em vista que este posto é ocupado por uma pública… a propaganda acima é super honesta, escancarando que a competição aqui é entre as escolas pagas.

Ops, lendo números...

Ops, lendo números…

Mas o que mais me chamou a atenção foram os dados incluídos no marketing do Israelita: “51% de aprovação na UFRGS” e “81% de aprovação no geral”. De saída quero dizer que estas estatísticas me parecem significar um enorme sucesso da instituição no intuito de colocar seus jovens pra estudar na Educação Superior. Eu apostaria que a ampla maioria das escolas privadas não tem dados tão bons pra apresentar.

Mas… as estatísticas também podem expor aquilo que a maioria das escolas do mercado escondem. Versão Juca: “49% de REprovação na UFRGS” e “19% de REprovação no geral”. Resumindo, dinheiro não compra sucesso. Papai e mamãe quando pagam as mensalidades, fazem seu “investimento”, não esperam que @ pimpolh@ fique fora da universidade mais prestigiada, ou ainda, não ingresse em nenhuma faculdade… Apesar de ter estudado na “melhor” escola.

De cada 2 estudantes 1 não vai passar na cobiçada UFRGS. E, claro, papai e mamãe devem ter certeza que o reprovado será o coleguinha, o vizinho. Eu não seria um bom marqueteiro… Que tal: “Aqui nessa escola o teu filho tem a mesma chance de ser aprovado ou reprovado na UFRGS”.

ENEM AÍ

Propaganda com chancela do MEC

Propaganda com chancela do MEC

Porto Alegre (não vi, não sei, não tenho nada a ver com isso…) – Na defesa convicta do ENEM o Ministério da Educação afirma que não produz e nem divulga rankings. Se a imprensa e as empresas (ditas escolas) fazem isso, ele, MEC, não é culpado. Deixa eu pensar um pouco… Claro, eu produzo armamento, num mundo em guerra, mas se usam meu produto para matar pessoas não venham me acusar de assassinato…

Sim, já é piada entre os que trabalham com estatísticas: os números, se submetidos à tortura, confessam qualquer coisa. Ou seja, se o leitor quiser enfocar, focalizar e enviesar as informações, é fato, o erro não é de quem produz a informação. Mas ser omisso no embate contra o mal uso me parece um erro. Ser afável, cordial com a suposta deturpação é ser conivente com os erros.

Na minha opinião o MEC deixa muito barato o uso de seus dados. Faz propaganda na TV e nas rádios pra um monte de bobagens – inclusive divulgando prazo de inscrição no ENEM (pelo jeito anda faltando candidato….) – mas não politiza o uso dos dados e não mostra outras abordagens e interpretações possíveis para os mesmos.

Na foto acima o uso bastante corriqueiro – e o mais visível – do ENEM: uma instituição se auto-promovendo usando informações oficiais. Outdoor em Porto Alegre avisando quem é o “1º lugar no ENEM”, em letras garrafais. O nome do Colégio em segundo plano. Até aí nenhuma novidade. O interessante aparece nas letrinhas – no estilo contrato, nas notas de rodapé – vocês enxergam?: “entre os colégios privados do estado”. Pra quem não sabe, usando o mesmo critério – nota média nas questões “objetivas” –  o primeiro lugar no Rio Grande do Sul é de uma escola PÚBLICA

Enfim, o Colégio Leonardo Da Vinci não está mentindo. Só está usando as informação de modo que melhor o posiciona no mercado (e no marketing) – e nisso é bastante honesto…

Mesmo atrasado, vou seguir no assunto nas próximas postagens.

VENDENDO EDUCAÇÃO

 

Gostei do destaque para o FÁCIL

Gostei do destaque para o FÁCIL

 Porto Alegre – (só não entra quem não quer…) – E veja que o texto completo é “aqui qualquer fase fica mais fácil”. Ou seja, já é fácil. Mas temos que concordar que a propaganda é coerente com o nome do cursinho. A gurizada presta vestibular / ENEM, leva uma cacetada da concorrência, quase morre de tristeza e, então, renasce das cinzas, forte, firme, pronta pra morrer de novo, pagar mais um ano de cursinho…

 

 

INVASÃO PAULISTA

invasão paulista

Porto Alegre (depois de longo verão ausente…) – Provocado por minha querida ex-orientanda Tina, volto a este humilde blog. A polícia federal me convocou para depor sobre a acusação de ter informações privilegiadas e prever o futuro. Alunos e outros malucos que me ouviram recentemente afirmando que a UFRGS tem medo da concorrência e que se a meritocracia por estas bandas fosse levada ao extremo, os estudantes de nossa prestigiosa universidade viriam de outras regiões e estados. Me declaro culpado, e tem prova disso em post que publiquei em janeiro aqui. Reportagem da Rádio Gaúcha mostra os dados deixando clara a mudança de perfil dos ingressantes – leia aqui.

Fiz umas tabelinhas para ilustrar a “invasão” dos “estrangeiros” nas terras do sul.

sisu x vest ufrgs geral

Note que praga. Pelo nosso glorioso vestibular, considerando as vagas de todos os cursos, conseguimos peneirar bem, e temos somente 3,9% de estrangeiros em nossas salas de aula. Já via Sisu os forasteiros chegam a absurdos 40,1%. Onde isso vai parar?

E notem o descalabro abaixo, nooosssaaaa senhooooraaaa….

sisu x vest ufrgs medicina

Diante de nossos incrédulos olhos estão as estatísticas do ultra concorrido curso de medicina. Via magnífico vestibular da UFRGS passaram pelo funil apenas 7,1% de gente de fora dos pampas. Já através do matadouro ENEM/SISu foram 81% de coisas ruins. Só os paulistas ocuparam 23 das 42 vagas, ou seja, 54,8% de conterrâneos meus. Sobrou só 19% pra médicos gaúchos…

Enfim, na primeira vez que estamos usando ENEM/SISu, com meros 30% de vagas em jogo, já fica claro o rumo da prosa. Se a UFRGS adotasse a prova nacional abolindo o vestibular em pouco tempo quase ninguém falaria tu ou tomaria chimarrão em nossos campi… E eu iria embora pra Patagônia, porque de paulista eu aguento só eu, e olhe lá, rarara.

Segue firme e altiva nossa eterna luta pelo fim dos vestibulares e do ENEM/SISu. Vagas pra todos em universidades públicas, gratuitas, laicas, democráticas e de qualidade social!!!

NOSSA UFRGS

O rapaz vai estudar em universidade dos Estados Unidos. Fez vestibular? Não!

O rapaz vai estudar em universidade dos Estados Unidos. Fez vestibular? Não!

Gramado (sem internet ontem a noite – fim do vestibular: a luta continua) – Tem gente na UFRGS que vive dizendo: somos uma universidade de “excelência”, de “padrão internacional”, bla, bla, bla. Então, na hora de selecionar estudantes que tal ver como fazem outras que, segundo múltiplos critérios internacionais, são consideradas universidades de qualidade?

Os norte-americanos são os pais da meritocracia, os arautos da concorrência, os pregadores do livre mercado, a pátria do self-made man (aqueles que se fazem por conta própria – leia aqui um artigo interessante). E os EUA figuram em qualquer ranking (ai, ai, ai, ai…) internacional de universidades, comparecendo com mais instituições do que qualquer outro país. Logo, os tupiniquins que acreditam em seleção, em meritocracia e em universidade de ponta deveriam ao menos saber e refletir sobre os modos de ingresso naquelas universidades.

Pois bem, o Gustavo, moço da foto acima, foi aceito para estudar na Stanford University (consta entre as 10 mais gostosonas nos rankings badalados). O rapaz que se faz por contra própria brasileiro conta como fez pra chegar lá (leia aqui).

Ele ensina e lista “alguns pilares avaliados na seleção de candidatos para os colleges” (por estas bandas diríamos faculdades ou universidades):

1) redações para entender o perfil e as histórias do candidato

2) nível de inglês (língua usada nas universidades americanas)

3) testes padronizados

4) cartas de recomendação

5) notas na escola

Os vestibulares, na melhor das hipóteses, cobrem dois dos tópicos acima: eles são um tipo de teste padronizado (item 3) e avaliam competência linguística (será?) com redação e prova de língua portuguesa (item 2 – inglês é a língua preferencial dos States…). Mas atenção, os testes padronizados ianques não são feitos em cada universidade, são testes nacionais. Aqui no Brasil costumam comparar estes testes (SAT e ACT) com o ENEM. No entanto, os testes norte-americanos não substituem os outros quesitos listados pelo Gustavo, ao contrário do ENEM que vem sendo utilizado como único ou principal meio de seleção, logo é uma comparação equivocada.

Frente a frente com a seleção meritocrática norte-americana os nossos vestibulares (e o ENEM) são simplórios e reducionistas. Os vestibulares ignoram a trajetória dos estudantes, a inserção social e acadêmica dos candidatos, as suas relações e compromissos coletivos, a sua vida escolar, os seus anseios e projetos. Isso tudo que os brasileiros descartam é a essência da seleção dos súditos de Obama. Taí algo que, por coerência, os meritocratas brasileiros deveriam refletir por dois segundos antes de seguir defendendo ENEM e/ou vestibulares cegamente. Perto das melhores universidades do mundo nossas seleções de estudantes são tacanhas, burocráticas, estreitas…

E tem mais… a batalha contra os vestibulares segue firme!

FALA FREITAS

blog avaliação educacional

Gramado – (ainda hoje, segue a luta anti-vestibular…)

E nosso blog também vai reforçar os trabalhos de outros blogs e sites de colegas que atuam com princípios e ideias convergentes com as nossas. A primeira dica é o Blog Avaliação Educacional, sob responsabilidade de Luiz Carlos de Freitas (clique aqui). Nosso colega da Unicamp é uma referência no tema, ainda mais quando a abordagem é avessa às múltiplas bobagens da onda de provas que invade o país. Assim, se quiserem informações minuciosas e posições críticas sobre ENEM, Prova Brasil, IDEB, Provinha Brasil, PISA e quetais o Freitas tem um arsenal impecável.

E atenção pedagogas! Hoje ele fala sobre a possibilidade dos professores terem que passar por uma espécie de ENEM para assumirem cargos em concursos, uma ideia que está sendo requentada pelo novo ministro, Cid Gomes.

Quando eu deixar de ser analfabeto informacional ou quando uma alma caridosa me ajudar eu coloco links permanentes dos blogs aliados nas minhas barras laterais.

NOSSA UFRGS

Logo da universidade (e o galã é o nosso reitor, o Alex)

Porto Alegre (Fim do vestibular 1) – Pros gaúchos o primeiro parágrafo é estúpido, mas pro povo do resto do Brasil é aula de alfabetização. Vamos lá: não somos uma sigla, como UFMG ou UFRJ, logo, nada de U-F-R-G-S. Somos um nome próprio, com identidade e sotaque. Pronuncie: “Úrguez”. Não é “Úrguiz”. Atenção, cariocas, sem Xix no final! E esqueçam do F. Ninguém fala “Uférguez”.

Claro,” nossa UFRGS” porque ela é pública. Como instituição federal é mantida com recursos do teu bolso, do meu bolso, do nosso bolso. Ela é propriedade do Estado brasileiro e tem como função servir ao povo do país. Acaba de completar 80 anos, com forte trajetória acadêmica, assim, é uma universidade consolidada. Mas é importante questionar o quão pública ela é e como vem servindo à população brasileira. A universidade cresce e vem se modificando na busca de aperfeiçoamento. Hoje vou falar sobre alterações no vestibular.

No exato momento em que escrevo e posto este texto cerca de 40 mil candidatos se acotovelam em busca de aproximadamente 4 mil vagas. A conta é simples, mas os números não falam, nós é que damos significados aos dados quantitativos. Um exemplo: nossa sociedade (doente?) acha normal, aceitável, que 30 mil pessoas não tenham direito a estudar na UFRGS. Ao contrário, julgamos ser saudável que a juventude se torture anos a fio com o singular objetivo de pisar no pescoço de outros 9 concorrentes.

A edição de hoje do jornal Zero Hora questiona “o futuro do vestibular” e aponta seu potencial substituto, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), como única alternativa. Este será o primeiro ano em que a UFRGS preencherá vagas via ENEM / Sisu (Sistema de Seleção Unificada, mais info aqui). Serão 30% das vagas, um teste.

Bem, na míope percepção deste que vos escreve, vestibular e ENEM são farinha do mesmo saco. Apesar das reais diferenças entre os dois mecanismos há um princípio que os une pela raiz: são, ambos, instrumentos de exclusão, montados para justificar e legitimar que poucos tenham acesso à Educação Superior. E, cereja no bolo, ainda culpabilizam as vítimas pelo seu próprio fracasso. Acredito que precisamos mudar a sintonia do debate e defender o direito de acesso ao ensino superior para TODOS (sem vírgulas, sem senões). Seguimos…