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MINHAS NOTAS VERMELHAS

Notas da 5a série: lembro muito bem!

Notas da 5a série: lembro muito bem!

Porto Alegre (Acheeei meus boletins de notas!) – Desde quando decidi o nome do blog eu procurava por isso. A primeira vez a gente nunca esquece!!! Voilà, minhas primeiras notas vermelhas – na escola.

1984, quinta série, matemática, 2º bimestre: 3,5!

Enfiei o pé na jaca direitinho. Não foi um mero 4,5 ou 4,0. E quero dizer, na verdade exclamar: foi injusto!!! Se a nota expressasse exatamente meu rendimento escolar naquele momento eu deveria ter ficado com… 1,5 ou 2,0, no máximo!

Fui aluno do "Derville". Na época também falavam "Comercial"

Fui aluno do “Derville”.

E esse ano foi marcante pra mim. Pra ser mais exato, 1984 foi maravilhoso!

Foi o ano que eu ganhei a minha desejada bicicleta, uma Caloi Cross Extra Light vermelha. Sim, da minha avó, Dona Nair. Com a bike pude rodar por quilômetros longe de casa, pela Zona Norte paulistana. Da minha casa no Anhembi até Tucuruvi, Mandaqui, Casa Verde, Jardim São Paulo, Horto Florestal (quem é de lá vai saber o que isso significa: ladeiras mil, subidas e descidas íngremes, curvas maravilhosas para um ciclista destrambelhado). Com ela saltei rampas, bancos de praças, lombadas, escadarias, barrancos… Com ela quebrei um dente e levo comigo diversas cicatrizes, em especial nas canelas, as quais guardarei para sempre comigo.

Foi o ano em que comecei a tocar na banda marcial da escola. Excelente, pois ganhei carta branca pra voltar pra casa à noite, sozinho, após os ensaios, atravessando duas avenidas super movimentadas. Foi quando a música clássica entrou no meu horizonte. Depois de testar trombones, pratos, bombardinos, repiques etc, me apaixonei pelo trompete e dediquei-me a ele seja na sua limpeza e manutenção, seja nos ensaios, saindo com a boca esfolada, mas feliz da vida.

E por falar nisso, esse foi um ano em que minha boca “sofreu” muito. Foi lá que despendi horas esfolando-a na boca de algumas meninas. Sabe como é, ensaios… pra aprender é preciso dedicação!

Sim, meninas. Foi um ano mágico com elas. Eu tinha duas colegas de piscina muuuito boas. Nadar? Não muito. Nós nos divertíamos em jogos de mergulho, malabarismos, pega-pega. Uau, elas me pegavam bastante e eu amava pegá-las.

E me descobri no futebol. Treinando no time do clube encontrei a posição ideal: lateral direito. Ótima alternativa, pois meu forte nunca foi a habilidade. Eu tinha garra, fôlego, agilidade e disciplina. Aprendi ali a tirar vantagem dos meus potenciais.

Em 1984 consegui escalar e transpor os muros de 4 metros da vila militar em que morava. E exercitei bastante minha rebeldia infanto-juvenil invadindo o aeroporto do Campo de Marte nas madrugadas com um bando de colegas. Íamos para a pista de pouso para pegar balões nas noites geladas de inverno. Íamos para os hangares para ver os aviões e helicópteros de perto ou, simplesmente, – e mais divertido – brincar de polícia e ladrão… com os soldados da aeronáutica.

 

Minha foto em 1985. A de 84 era antiga...82

Minha foto em 1985. A de 84 era antiga…82

Seja para os ensaios da banda, seja para os grupos de trabalho da escola, seja para os desfiles e apresentações da banda, eu passei a andar sozinho pela cidade, usar ônibus pra todos os lados. Liberdade! Responsabilidade por meus caminhos e destinos!

E o fracasso em matemática me fez perder parte das férias de julho. Ao menos foi essa a interpretação que tive à época. Minha prima Maria Aparecida foi escalada pra me ensinar a fazer contas, logo, passei uma temporada na casa de minha tia. E não me venham com assanhamento (suas mentes sujas!), a relação com minha prima era de total respeito, e eu fiz tanto exercício e ela teve tanta paciência que eu tomei gosto pela matemática. Ela voltava do trabalho (sim, era adulta!) e sentava com o pivete para corrigir a batelada de tarefas diárias. Ganhei de presente a doce companhia de minha tia Amália, aprendi a comer arroz integral, comida com pouco sal, cappuccino e me deliciava com suas chipas e sopas paraguaias. Batia altos papos com meu falante tio Beni, e escutava suas guarânias. Hoje compreendo que foi uma das melhores férias da minha vida, pois se tivesse desistido da matemática eu não estaria em minha profissão hoje, não faria as pesquisas que faço, não seria tão feliz.

E minhas notas vermelhas? Tenho algumas hipóteses: a professora de matemática da 5a série era um ser nojento e sem energia. Claro, essa imagem é um contraste com o ano anterior. Em 1984 eu passei a ter várias professoras, um choque, pois eu havia tido uma mega professora de 4a série, uma mineira (óbvio!), a Elaine, por quem eu era apaixonado e ela não escondia sua reciprocidade. Dizia que eu iria me casar com sua filha, à época com 2 ou 3 anos… Aquele bando de professoras que mal olhavam para os alunos (pois tinham centenas deles em múltiplas salas) também não ganharam a minha atenção. O mundo fora das classes era milhares de vezes mais interessante!

Se eu pudesse repetir esse ano seria uma maravilha. Não na escola! Mas por tudo que aprendi em 1984, tudo de essencial que vivi naquele momento, tantas descobertas e prazeres, tanto auto-conhecimento, tantas definições e mudanças de rotas.

O desempenho escolar foi um mero detalhe. Ali eu aprendi na prática que a vida é bem mais do que escola, que formação e crescimento estão muito além de conteúdos curriculares. Essa lição eu aprendi direitinho. Enfim, 1984 foi espetacular, apesar das notas vermelhas.