Category Archives: pedagogia

PEDAGOGIA UFRGS

Professoras em formação exigem respeito

Professoras em formação exigem respeito

Porto Alegre (estudantes: seres passivos ou ativos?) – Pra quem militou no movimento estudantil como eu a resposta poderia parecer óbvia. Mas com tanta gente que “muda” (de lado) nesse mundo… Ainda mais depois obter diplomas, doutorados, empinam o nariz e passam a enxergar por outros ângulos (melhores que os demais mortais, claro).

Eu certamente mudei bastante, mas não tudo, e preservo minha convicção de que estudantes de pedagogia devem ser abordadas como professoras em formação (Xiiii, o cara não disse nada com nada). Vou tentar me explicar: noto que muitas vezes as estudantes são tratadas como imaturas, irresponsáveis. Suas opiniões não interessam, suas visões são tortas, suas decisões equivocadas, suas ações desastradas. Logo, não se enquadram na categoria das professoras – nem em formação.

Nessa percepção elas são postadas na humilde posição de receptoras de conhecimento, sendo este advindo de entes superiores, seus mestres. São plantinhas que precisam florescer, sendo regadas, preservadas e cuidadas por expertos da universidade. E um dia, quando receberem um diploma, poderão ser consideradas “prontas”.

Assumo que não consigo ser coerente com essa minha convicção o tempo todo, em todas as minhas interlocuções. Sim, fui (de)formado numa sociedade autoritária, meritocrática etc e ainda não me livrei de algumas dessas bagagens incômodas. Mas sigo tentando. E também assumo que carrego nas tintas por aqui, pois as intervenções que desqualificam as estudantes de pedagogia são sempre mais sutis.

Acredito que alguns docentes fazem isso sem maldade alguma, sem intenção de desqualificar. Fazem porque foi assim que aprenderam e vivenciaram, e não sabem fazer diferente. Talvez não tenham parado para refletir especificamente sobre isso, dado o milhão de outros compromissos e prazos que nos atormentam. Mas há também aqueles convictos do papel subalterno das estudantes e que consideram perda de tempo levar a sério os seres inferiores. E aqui as coisas são enrustidas, dissimuladas, não assumidas.

É mais fácil perceber essa abordagem detratora das estudantes pelas omissões do que pelas ações, mais nas ausências do que nas presenças, na não exposição de opiniões mais que na sua explicitação. Ignorar as estudantes e desdenhar delas é a tônica. E há também quem tenha uma posição consistente de atacar e rebater qualquer fala de estudante, sem dar espaço para compreender, acolher.

Estudantes não são minhas iguais nem numa sala de aula e nem nos debates curriculares. Sou um funcionário público, tenho obrigações, funções e responsabilidades que são diferentes, são minhas, e que compartilho com colegas docentes. Minha trajetória também me coloca num ponto diferente do debate, sem dúvida.

Mas estudantes são minhas iguais em dignidade. Elas merecem meu respeito tanto quanto os docentes, sem nenhuma diferença. Merecem ser ouvidas. Suas ideias devem ser consideradas. Eu tenho obrigação de olhar nos olhos delas e responder suas questões, com honestidade. Suas opiniões, por mais absurdas que possam parecer, exigem de mim escuta atenta, compreensiva.  As divergências que tenho com estudantes (e tenho e terei várias) precisam ser expressas com franqueza, mas sempre com a cautela necessária para não transmutar automaticamente minhas diferenças com elas em desigualdades. Ou seja, eu não tenho e não terei razão o tempo todo pelo simples fato de ser docente. E eu posso – e quero – aprender (e muito) no diálogo com elas.

Assim, estudantes de pedagogia não são apenas alunas (no sentido original dos “sem luz”). São professoras em formação. São especialistas em educação num processo de aprimoramento pessoal e profissional. Elas devem tomar posição agora, e não somente após terem um canudo universitário em mãos. Elas precisam ser críticas já, e não apenas nos seus futuros empregos. Elas tem o direito de decidir os seus rumos enquanto caminham, conosco, na graduação da UFRGS. Precisam vivenciar democracia para se fortalecerem como democratas. Elas devem assumir postura docente no seus percursos formativos, no processo em que estão inseridas na licenciatura.

Nós, docentes, temos o dever de apoiá-las nesse processo, oferecendo oportunidades de contato próximo das questões sobre o curso que elas escolheram. E precisamos ser compreensivos o suficiente para saber, de antemão, que elas também vão errar, vão exagerar, vão se omitir. E que nós temos a obrigação profissional de dialogar com elas sobre isso, tentando julgar e punir menos,  questionar e orientar mais. Com respeito, olhos nos olhos, não de cima para baixo.

CORUJA PEDAGOGA

A mascote da pedagogia precisa ser sempre bobinha?

A mascote da pedagogia precisa ser sempre bobinha?

Porto Alegre (pedagogia ousada, irreverente, transgressora) – Sei lá quem define essas coisas, mas a tradição aponta a coruja como o animal mascote do curso de pedagogia. No geral apresentam o bicho infantilizado, com ar estudioso, de toga, óculos, livros, lápis, postura professoral… E isso demonstra um imaginário sobre as profissionais desse curso. E um arco restrito de pedagogias…

Tá aqui uma típica coruja pedagoga, argh...

Tá aqui uma típica coruja pedagoga, argh…

Pra não dizer que eu só chuto o pau da barraca vou aceitar o bichano como símbolo – ah, tá bom, vai. Mas vou me dar o direito de não retratá-lo de modo bobinho.

Assim, as minhas corujinhas para as postagens sobre o curso de pedagogia terão as formas de como eu vejo e defendo a profissão. Você não precisa gostar, óbvio. Nem quero te converter a nada (abaixo o proselitismo!). E seguirei lutando pela diversidade, pela liberdade, por uma pedagogia comprometida e de lutas, pelo protagonismo das estudantes e das profissionais da educação.

Aguardem meus vôos pelas asas da pedagogia…

PEDAGOGIA UFRGS

Um curso mutante pela própria natureza

Um curso mutante pela própria natureza

Porto Alegre (processo de reforma curricular) – Currículo é um troço bem interessante. O do curso de pedagogia mais ainda – ao menos pra mim. Constantemente estamos defendendo a manutenção, o aprofundamento e a ampliação de várias questões (disciplinas, abordagens, formas de organização etc) ao mesmo tempo em que há movimentos contínuos de alterações, não só pontuais e cosméticas, mas também de fundamentos e de espinha dorsal. Se o mundo muda, se a educação deve dialogar com a realidade, nada mais esperado que um processo espiral de debates curriculares na pedagogia, criando potencialmente um curso mutante, plástico, aberto, estimulante, excitante…

Lembro que iniciei meus debates a respeito do tema logo no primeiro semestre do curso de pedagogia, como estudante, em 1991… Aprendi demais, participei de diálogos que abriram meus horizontes sobre as licenciaturas, sobre a formação de professores, sobre a educação como um todo. Foi um banho de realidade e de teorias. E tudo isso porque tive a oportunidade de partilhar estes momentos tanto com minhas colegas veteranas quanto com muit@s docentes do curso, com as visões e opiniões as mais diversas. Isso foi um curso a parte, insubstituível na minha trajetória.

Daí que tenho defendido as discussões públicas e conjuntas entre docentes e estudantes acerca da reforma curricular do curso de pedagogia da UFRGS. O processo, em si, é riquíssimo e tod@s, sem exceção, crescem muito ao participar. Ouso afirmar que o processo é múltiplas vezes mais pedagógico do que qualquer resultado que consigamos obter, porque bem mais heterogêneo, amplo, plural e rico do que é possível caber em qualquer grade curricular…

Enumero alguns argumentos para afirmar a riqueza dos debates coletivos e sem segregações:

1) Há docentes do curso de pedagogia que não são pedagog@s, logo, não necessariamente têm uma visão global dessa licenciatura e nem sempre compreendem a importância de áreas distintas da sua (e não defendo exclusividade de pedagogos entre os docentes, muito pelo contrário!);

2) Entre @s docentes pedagog@s a amplíssima maioria (senão tod@s) foram formad@s quando o curso tinha outra lógica, com especializações / habilitações distintas / separadas. Esta concepção foi superada na última reformulação das diretrizes curriculares. No entanto, há colegas que seguem fazendo a discussão como se ainda prevalecesse a lógica das especializações / habilitações – agora coabitando dentro de um único curso;

3) Praticamente tod@s os docentes foram formad@s em licenciaturas que separavam claramente disciplinas teóricas de disciplinas práticas, forjando uma dicotomia que deseduca, rotulando as abordagens e suas contribuições, segregando o que deveria estar em diálogo constante. Ao partilharmos o debate coletivo remamos contra essa correnteza, conhecendo melhor o outro, compreendendo mais sobre as suas abordagens;

4) Praticamente tod@s @s docentes foram formad@s em licenciaturas que isolavam as disciplinas tidas como práticas e os estágios ao final dos cursos, após – e somente após – @s estudantes acumularem “bagagem” teórica para olhar e se relacionar com a realidade. Outra vez, esse paradigma foi ultrapassado pelas novas regras para o curso de pedagogia (2005/2006), mas basta olhar para nossa grade pra identificar esta lógica firme e forte. Para superar isso precisamos afinar olhares e pensar alternativas;

5) @s estudantes ganhariam demais ao compartilhar com os docentes o que estes podem aportar através de suas visões, dúvidas e propostas para um novo currículo. Mas @s estudantes podem aportar um conhecimento que nenhum professor tem: o de vivenciar o currículo atual, passando por diferentes semestres e áreas. E outra inédita contribuição discente reside no fato del@s não se verem eventualmente constrangid@s a defender espaços / créditos para este ou aquele departamento, esta ou aquela área específica.

Enfim, os tópicos acima são apenas alguns de muitos outros que caberiam aqui… Certamente voltarei várias vezes ao tema – prometo!

Mas sigo acreditando na riqueza do debate público e conjunto entre docentes e discentes. Penso ser um desperdício e um empobrecimento se apartarmos as discussões, tendo professores de um lado e estudantes de outro.

E seguirei prestigiando todos os espaços de debate presenciais, ao vivo e a cores. Mas vou usar este blog para seguir dialogando tanto com minhas colegas docentes quanto discentes, na certeza de aprender demais com ambas.