Author Archives: Juca Gil

About Juca Gil

Sou mais um educador nesse mundão. E sou pedagogo, professor por convicção, por escolha (e não falta dela). Acredito que simplificar as coisas não ajudam nem a entendê-las e muito menos a melhorá-las. Logo, tento tratar da complexidade, do que há além das dualidades. Trabalho como docente na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E sou filho da USP (graduação, mestrado e doutorado). Moro em Porto Alegre com cachorrinha, dois filhos e esposa (não necessariamente nesta ordem).

A FORÇA DAS MINORIAS

A força das minorias

Derrotada a redução, por enquanto

Porto Alegre (um elefante incomoda muita gente, dois elefantes…) – Então, seguimos sendo minoria como dissemos anteriormente (ver aqui). Mas uma minoria que luta, que se indigna, que defende suas posições com firmeza e dignidade.

E isso é que nos dá força pra seguir lutando, pra acreditar, pra renovar energias e seguir conquistando em pequenos gestos, com paciência histórica.

Numa democracia as regras do jogo não garantem vitórias apenas na simples contabilidade das maiorias simples, os tais metade mais um. Há questões que exigem maioria qualificada…

Aproveito a ocasião pra botar outros bodes nessa sala: “político” é tudo igual? partidos não fazem diferença?

Veja como a maioria dos membros das bancadas da Câmara dos Deputados se posicionou sobre a redução da maioridade penal:

Sim: PSDB, DEM, PMDB, PP, PR, PRB, PSC, PSD, PTB, Solidariedade

Não: PT, PCdoB, PDT, PPS, PROS, PSB, PSOL, PV

Claro que as bancadas não votaram todas em blocos, pois alguns deputados se posicionaram de modo distinto da maioria de seus colegas de partido (ver aqui).

Veja lá no uol: “No total, a proposta recebeu 303 votos a favor, 184 votos contra e 3 abstenções. Para que fosse aprovada, eram necessários 308 votos, ou seja, cinco a mais do que o registrado”.

Foi por muito pouco. Apenas 5 votos e tudo teria ido pro ralo… Mas 5 podem fazer toda a diferença!

SINDICALISMO VERGONHOSO 2

Mobilizar para tirar férias, negociar para pelegar!

Mobilizar para tirar férias, negociar para pelegar!

Porto Alegre (greve nas férias) – E a tal da votação eletrônica do sindicato pelego começou hoje e vai até dia 03/07 (ver aqui).

E eles (ADUFRGS / PROIFES) aprenderam como fazer greve: nas férias!!!

Em 2012 foi a mesma coisa. Mas só entraram em greve porque os militantes do ANDES (eu no meio) fomos pra Assembleia de votamos pela adesão ao movimento nacional. Eles aprenderam a lição e, em 2013, mudaram o Estatuto da ADUFRGS / PROIFES. Agora greve é decidida apenas em votação eletrônica (ver artigo 24, uma obra de arte!)

Agora propõem bravos, indignados, ultra mobilizados que a greve tenha início dia 07 de julho. Quase dá pra ouvir os caras dizendo: “Vou terminar minhas aulas, relatórios, reuniões e sair de greve, ops, férias”.

Na Assembleia da ADUFRGS ocorrida há poucas horas não houve consenso sobre isso. Oito militantes votaram contra a diretoria, querendo que a greve tivesse início dia 03 de agosto. Perderam, pois outros vinte votaram junto com a brilhante direção sindical.

Agora eles precisam mobilizar as bases pra greve acontecer. Necessitam que 20% dos filiados façam o enorme esforço militante e cliquem no portal da entidade. E aí contam os aposentados… (diria que controverso…). Sem 20% a decisão não vale, seja ela qual for (sim ou não à greve dia 07 de julho).

O Planalto treme de medo!!!

O Planalto treme de medo!!!

Mas não se preocupem, pois a Direção prometeu enviar emails diários aos filiados, convocando para a luta com seus mouses em punho…

Eu não voto. Não vou respaldar essa palhaçada.

SINDICALISMO VERGONHOSO 1

Isso que é mobilização: decidir greve por um clique...

Isso que é mobilização: decidir greve por um clique…

Porto Alegre (sindicato virtual) – Os docentes da UFRGS têm dois sindicatos. Sou filiado a ambos. A Seção Sindical do ANDES na UFRGS, a qual deliberou por entrarmos em greve, tendo início hoje, 29/06. E a ADUFRGS, filiada ao PROIFES.

Tenho orgulho dos militantes do ANDES e tenho vergonha da direção da ADUFRGS / PROIFES. Um sindicato que compreende mobilização e organização tendo como principal fórum de deliberação uma votação eletrônica é patético. É desmobilizador, é anti-movimento, é comodista, é preguiçoso, é pelego. Taí a íntegra do edital:

pauta adufrgs greve detalhe

 

Mas na aberração que eles insistem em chamar de sindicato colocaram uma assembleia com o objetivo de… dar início à votação eletrônica! Taí os cerca de 30 colegas que compareceram para a deprimente cena mobilizatória, agora há pouco:

adufrgs votação assembleia 29 06 2015

Foi interessante, pois a transmissão online funcionou e foi gravada. Assim, assisti uns trechinhos – mas depois não localizei de novo o link, pois seria democrático e transparente – didático! – se eles mantivessem no ar para mais gente aprender como se faz a luta…

ENTRANDO EM GREVE

Governo não dialoga: greve é a alternativa

Governo não dialoga: greve é a alternativa

Porto Alegre (a UFRGS não será a última!) – A greve dos docentes das instituições federais de ensino superior teve início em 28 de maio e contava até o momento com a adesão de 35 instituições – ver aqui. A Seção Sindical do ANDES na UFRGS convocou Assembleia Geral dos Docentes para a noite de ontem na qual se decidiu pela nossa entrada no movimento.

Assim, hoje a reitoria será informada oficialmente e, cumprindo a lei de greve, paralisaremos nossas atividades a partir de segunda-feira, dia 29 de junho. Seremos a 36ª instituição federal a aderir à greve. Em 2012 brincávamos se a UFRGS seria a última a entrar na greve ou se seria a única a não entrar… a história mudou. Somos a primeira do Rio Grande do Sul e desejamos assim estimular outros colegas a se juntarem a nós, não sendo únicos ou últimos…

Deliberamos também que uma das medidas imediatas a serem adotadas será a retenção de conceitos, não postando as notas das disciplinas sob nossa responsabilidade no portal da universidade.

Discutimos a situação das negociações nacionais, sem nenhum avanço por parte do Governo Federal, o qual protela contatos e busca ganhar tempo e esvaziar o movimento.

Debatemos também as pautas de reivindicações nacionais (aqui) e não restou dúvidas de que temos motivos e razões de sobra para ingressar na greve.

E também iniciamos uma rica discussão sobre as nossas lamentáveis condições de trabalho na UFRGS. A universidade de “excelência” é uma lenda, a qual estamos desmascarando. Ao tratar da pauta local, notamos que a nossa reitoria omite informações, por exemplo, sobre os cortes orçamentários, e atua deliberadamente contra nossos direitos, como no sequestro de nossas progressões funcionais.

No levantamento sobre as condições das unidades de ensino temos relatos, por exemplo, sobre as condições degradantes do Instituto de Psicologia, da precariedade absurda em que se encontra o Instituto de Artes e dos perigos a que estão expostos os que trabalham e estudam no Colégio de Aplicação.

Sobre a Faculdade de Educação também listamos uma enormidade de aspectos que explicitam a inexistência da propalada “excelência”. Mas isso é tópico para outros posts, nos próximos dias…

Agora é hora de informar a comunidade e mobilizar @s colegas. Nem todos entrarão em greve, como sempre. Alguns jamais entrarão em movimentos coletivos, é fato. E como sempre as formas de participar da greve serão distintos. Nem todos que apoiam a greve estarão nas manifestações ou assembleias. Alguns participarão mais no contato com os estudantes. Outros preferirão estar presentes nos debates apenas nas suas unidades. E movimento é assim, múltiplo.

Agora é hora de juntar forças com os trabalhadores técnico-administrativos, já em greve desde o final de maio. É hora de aprofundarmos as relações com @s estudantes, mantendo o caráter formativo do movimento grevista e partilhando pautas, como as reivindicações de melhores condições de segurança nos campi, ampliação e melhoria nos restaurantes universitários, na moradia estudantil etc.

O movimento grevista não é pra enfraquecer ou derrubar um governo. É pra disputar com setores conservadores e reacionários os rumos do Estado brasileiro. É pra mostrar a força dos movimentos sociais e garantir que direitos não sejam reduzidos, para que racionalidades economicistas não nos conformem em arcar com ajustes de uma sociedade injusta.

Aos que quiserem acompanhar os nossos passos e partilhar de nossa luta é só se manter em contato com a Seção Sindical do Andes na UFRGS.

SOU MINORIA, COM CONVICÇÃO

Respeito maiorias, mas não concordo sempre com elas

Respeito maiorias, mas não concordo sempre com elas

Porto Alegre (sou um no meio da multidão…) – Não é a primeira e certamente não será a última vez. Já estou bem acostumado a ser minoria em termos de ideias e posições. Em alguns casos fui convencido de que outras concepções eram mais interessantes – e mudei de posição. Em outros eu alterei rotas porque passei a enxergar as coisas por um ângulo diferente do passado. E outras vezes o mundo muda, as pessoas alteram suas perspectivas e você segue firme onde fincou suas bandeiras…

Na questão da redução da idade penal nada me convenceu a mudar de posição. Nada me comoveu. Nada sequer abalou minimamente minhas crenças. Ao contrário. O ódio dos argumentos, a vingança enrustida, a crença em que seres humanos jovens são irrecuperáveis só fortaleceram minha posição. Já havia me pronunciado brevemente sobre a caso aqui ao falar da expulsão de alunos de escolas. Raciocínio similar ao dos colegas do “Pensar a Educação em Pauta” ao abordar a reacionária volta da reprovação na capital paulista (ver aqui).

Acredito que pessoas mudam. Taí um pressuposto da questão pra minha cabeça. E defendo que a educação é uma forma de promover mudanças melhor que a punição, que o medo, que o terrorismo, que a hipocrisia, que o lavar as mãos, que a culpabilização das vítimas, que o gozo sádico de maiorias desesperadas. Educação é melhor que tudo isso junto, tomando por base o desejo pelo desenvolvimento humano. E mesmo que a educação não seja, no curto prazo, o remédio mais efetivo ela me parece, entre todos, o que proporciona melhores perspectivas a médio e longo prazos. E, sem dúvida, aquele cujo processo e seus métodos são, em si, positivos.

O Datafolha aponta que 9 em cada 10 brasileiros é favorável à redução da idade penal – ver aqui. Sim, também são maioria em defesa da pena de morte, da redução de impostos, do porte de arma, da criminalização do uso da maconha, do impeachment da Dilma, contra a legalização do aborto e o casamento gay etc. Registrado. Não compartilho das mesmas opiniões e seguirei defendendo posições contrárias até que me convençam a mudar de opinião.

A maioria come feijão todo dia, a maioria curte samba, torce pra time de futebol. A maioria acha o Brasil o melhor país do mundo e canta o hino nacional com orgulho. A maioria fecharia o Congresso Nacional e eliminaria os partidos políticos. A maioria é mulher e ainda não me  convenceram a mudar de sexo, muuuito pelo contrário… sou cada vez mais conservador – culpa das mulheres!

PENSAR A EDUCAÇÃO

Mais gente falando e escutando, lendo...

Mais gente falando, escutando, lendo…

Porto Alegre (chegar a mais gente) – Além de refletirmos e pesquisarmos sobre a educação é fundamental que seja possível fazer com que o fruto de nosso trabalho esteja acessível para mais pessoas, ampliando diálogos, formando opiniões, mapeando divergências, construindo novas alternativas. É um pouco disso que trato no artigo publicado no boletim “Pensar a Educação em Pauta”, o qual pode ser lido aqui.

CRECHE UFRGS E GREVE

Piquete da greve na UFRGS em frente da creche

Piquete da greve na UFRGS em frente da creche

Porto Alegre (polêmicas…) – Hoje de manhã a creche da UFRGS não abriu. A entrada foi bloqueada por servidores em greve. Pais, mães e filh@s chegaram e tiveram que voltar pra casa. Isso está gerando indignação, revolta, movimentos.

Também estive no frio da manhã com o Rodrigo e voltamos pra casa. Mas antes conversei com os manifestantes.

Toda greve gera transtornos e sempre prejudica o funcionamento regular de atividades. É uma medida extrema, desgastante. Mas ainda acredito que eficaz frente à insensibilidade de patrões e governos.

Considero desrespeito original e muito mais grave os governos não negociarem com o funcionalismo, obrigando-os a usar a greve como instrumento de pressão.

Considero desrespeitoso e desleal que as conversas sobre os rumos da creche não sejam abertas, francas e não sermos chamados para pensar o futuro da instituição.

Considero gravíssimo que a maioria das professoras da creche tenham contratos precários, terceirizados, ganhem muito pouco e estejam ligadas à mesma empresa que faz a limpeza da UFRGS, a qual vem atrasando salários e desrespeitando relações básicas de trabalho – e sobre isso temos sido coniventes.

As super competentes mulheres que educam nossos filhos na creche recebem da terceirizada algo próximo de R$1.000,00. Se fossem funcionárias públicas e estivessem no mesmo plano de carreira em que se enquadram os colegas do Colégio de Aplicação ganhariam mais ou menos R$3.000,00, teriam estabilidade e direitos trabalhistas.

Não penso que um desrespeito legitima outros desrespeitos. Acho apenas que somos bastante seletivos em nossas indignações, nos voltando com muita força contra um sindicato e seus trabalhadores e sendo muuuuito tolerantes com a reitoria e com o governo. Ou seja, quando quem pisa no nossos calos é grande nós somos menos bravos…

E tendemos a lutar muito pelo que entendemos ser nossos direitos e muito pouco (ou nada) pelos direitos alheios, inclusive daqueles que garantem a educação de nossos filhos e lhes asseguram direitos…

Gostaria que pudéssemos aproveitar a oportunidade que o movimento grevista nos proporciona para discutir o que realmente pode mudar a realidade da creche, dando dignidade a TODAS as trabalhadoras.

Não consigo reivindicar boas condições de trabalho, salário e direitos só para mim e pros meus filhos. Quero que os demais colegas da UFRGS, em especial os técnico-administrativos e – mais ainda- os terceirizados tenham sua dignidade respeitada, e possam também criar seus filhos com os mesmos direitos que eu tenho.

Sem falar de quem não é da UFRGS e não tem direito algum à educação infantil… Mas isso fica pra outro dia. Seguimos na luta!

MINHAS NOTAS VERMELHAS

Notas da 5a série: lembro muito bem!

Notas da 5a série: lembro muito bem!

Porto Alegre (Acheeei meus boletins de notas!) – Desde quando decidi o nome do blog eu procurava por isso. A primeira vez a gente nunca esquece!!! Voilà, minhas primeiras notas vermelhas – na escola.

1984, quinta série, matemática, 2º bimestre: 3,5!

Enfiei o pé na jaca direitinho. Não foi um mero 4,5 ou 4,0. E quero dizer, na verdade exclamar: foi injusto!!! Se a nota expressasse exatamente meu rendimento escolar naquele momento eu deveria ter ficado com… 1,5 ou 2,0, no máximo!

Fui aluno do "Derville". Na época também falavam "Comercial"

Fui aluno do “Derville”.

E esse ano foi marcante pra mim. Pra ser mais exato, 1984 foi maravilhoso!

Foi o ano que eu ganhei a minha desejada bicicleta, uma Caloi Cross Extra Light vermelha. Sim, da minha avó, Dona Nair. Com a bike pude rodar por quilômetros longe de casa, pela Zona Norte paulistana. Da minha casa no Anhembi até Tucuruvi, Mandaqui, Casa Verde, Jardim São Paulo, Horto Florestal (quem é de lá vai saber o que isso significa: ladeiras mil, subidas e descidas íngremes, curvas maravilhosas para um ciclista destrambelhado). Com ela saltei rampas, bancos de praças, lombadas, escadarias, barrancos… Com ela quebrei um dente e levo comigo diversas cicatrizes, em especial nas canelas, as quais guardarei para sempre comigo.

Foi o ano em que comecei a tocar na banda marcial da escola. Excelente, pois ganhei carta branca pra voltar pra casa à noite, sozinho, após os ensaios, atravessando duas avenidas super movimentadas. Foi quando a música clássica entrou no meu horizonte. Depois de testar trombones, pratos, bombardinos, repiques etc, me apaixonei pelo trompete e dediquei-me a ele seja na sua limpeza e manutenção, seja nos ensaios, saindo com a boca esfolada, mas feliz da vida.

E por falar nisso, esse foi um ano em que minha boca “sofreu” muito. Foi lá que despendi horas esfolando-a na boca de algumas meninas. Sabe como é, ensaios… pra aprender é preciso dedicação!

Sim, meninas. Foi um ano mágico com elas. Eu tinha duas colegas de piscina muuuito boas. Nadar? Não muito. Nós nos divertíamos em jogos de mergulho, malabarismos, pega-pega. Uau, elas me pegavam bastante e eu amava pegá-las.

E me descobri no futebol. Treinando no time do clube encontrei a posição ideal: lateral direito. Ótima alternativa, pois meu forte nunca foi a habilidade. Eu tinha garra, fôlego, agilidade e disciplina. Aprendi ali a tirar vantagem dos meus potenciais.

Em 1984 consegui escalar e transpor os muros de 4 metros da vila militar em que morava. E exercitei bastante minha rebeldia infanto-juvenil invadindo o aeroporto do Campo de Marte nas madrugadas com um bando de colegas. Íamos para a pista de pouso para pegar balões nas noites geladas de inverno. Íamos para os hangares para ver os aviões e helicópteros de perto ou, simplesmente, – e mais divertido – brincar de polícia e ladrão… com os soldados da aeronáutica.

 

Minha foto em 1985. A de 84 era antiga...82

Minha foto em 1985. A de 84 era antiga…82

Seja para os ensaios da banda, seja para os grupos de trabalho da escola, seja para os desfiles e apresentações da banda, eu passei a andar sozinho pela cidade, usar ônibus pra todos os lados. Liberdade! Responsabilidade por meus caminhos e destinos!

E o fracasso em matemática me fez perder parte das férias de julho. Ao menos foi essa a interpretação que tive à época. Minha prima Maria Aparecida foi escalada pra me ensinar a fazer contas, logo, passei uma temporada na casa de minha tia. E não me venham com assanhamento (suas mentes sujas!), a relação com minha prima era de total respeito, e eu fiz tanto exercício e ela teve tanta paciência que eu tomei gosto pela matemática. Ela voltava do trabalho (sim, era adulta!) e sentava com o pivete para corrigir a batelada de tarefas diárias. Ganhei de presente a doce companhia de minha tia Amália, aprendi a comer arroz integral, comida com pouco sal, cappuccino e me deliciava com suas chipas e sopas paraguaias. Batia altos papos com meu falante tio Beni, e escutava suas guarânias. Hoje compreendo que foi uma das melhores férias da minha vida, pois se tivesse desistido da matemática eu não estaria em minha profissão hoje, não faria as pesquisas que faço, não seria tão feliz.

E minhas notas vermelhas? Tenho algumas hipóteses: a professora de matemática da 5a série era um ser nojento e sem energia. Claro, essa imagem é um contraste com o ano anterior. Em 1984 eu passei a ter várias professoras, um choque, pois eu havia tido uma mega professora de 4a série, uma mineira (óbvio!), a Elaine, por quem eu era apaixonado e ela não escondia sua reciprocidade. Dizia que eu iria me casar com sua filha, à época com 2 ou 3 anos… Aquele bando de professoras que mal olhavam para os alunos (pois tinham centenas deles em múltiplas salas) também não ganharam a minha atenção. O mundo fora das classes era milhares de vezes mais interessante!

Se eu pudesse repetir esse ano seria uma maravilha. Não na escola! Mas por tudo que aprendi em 1984, tudo de essencial que vivi naquele momento, tantas descobertas e prazeres, tanto auto-conhecimento, tantas definições e mudanças de rotas.

O desempenho escolar foi um mero detalhe. Ali eu aprendi na prática que a vida é bem mais do que escola, que formação e crescimento estão muito além de conteúdos curriculares. Essa lição eu aprendi direitinho. Enfim, 1984 foi espetacular, apesar das notas vermelhas.

VENDENDO EDUCAÇÃO

Gosto da sinceridade: é elitista!

Gosto da sinceridade: é elitista!

Porto Alegre (outra proposta de nome: Exclusão pré-vestibulares) – Esse é mais um da série “cursinhos do meu bairro”.

Pois é, iniciar a formação de jovens se gabando de ser elite me parece o cúmulo do capitalismo selvagem. Mas também prefiro assim, sem meias palavras, sem tergiversar, sem eufemismos (acordei com vocabulário rebuscado hoje, me aguentem!).

Incoerente é esperar que esses fulaninhos e fulaninhas venham a ser cidadãos conscientes, críticos, comprometidos, com sensibilidade social…

São esses mesmos e suas gerações anteriores que não gostam de trabalhar no SUS, que odeiam pobre, que desejam ficar ricos mais do que serem úteis em suas atividades profissionais. O grande objetivo é ter seu consultório, ou melhor, clínica particular e tratar a saúde da…. elite!

E são esses mesmos que depois vão encher o saco do governo por criar o Mais Médicos, levando pessoas para respeitar a vida em lugares onde eles se recusam a colocar seus tênis Nike, onde não há revenda da Audi e da BMW.

LISETE ARELARO 70 ANOS

70 anos de lutas e alegrias!

70 anos de lutas e alegrias!

Porto Alegre (feliz aniversário, Lisete!) – Lisete Regina Gomes Arelaro, campineira do mundo, completa 70 anos hoje. Ela não foi minha professora na pedagogia, ao contrário do que muitos pensam. Conheci a Lisete na militância, nos movimentos, no PT. E, sim, foi minha orientadora de mestrado e doutorado. Compartilhei a gestão da Secretaria de Educação de Diadema com ela. Participei da coordenação de sua campanha à deputada. Tive o prazer de ser seu colega docente na USP, em meus tempos de substituto.

Foi minha madrinha de casamento. Viajamos e passeamos muito. São incontáveis as madrugadas e finais de semana que passamos no turbilhão em que se misturavam papos cotidianos e sonhos pro mundo com discussões teóricas e políticas.

Ela é e será sempre minha companheira de vida, de lutas, amiga. Como um ser maternal e solidário que a Lisete é eu também estou entre seus filhos, sempre cuidando de mim.

Sua garra, energia, vitalidade, desprendimento e senso de humor são minhas referências para seguir acreditando que podemos contribuir para mudanças sociais.

Do vermelho que sou não há como deixar de reconhecer que muitas das tintas, tons e matizes eu devo à sua colorida atividade e inspiração.

Lisete, querida, super abraço!!!

EXCELÊNCIA UFMG

Tripé acadêmico e instalações dignas

Tripé acadêmico e instalações dignas

Belo Horizonte (eu gosto daqui, uai) – Hoje e amanhã estou na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais participando do Seminário Educação no Espaço Público – ver aqui.

Lição básica em curso: uma outra excelência acadêmica é possível…

Estou conhecendo melhor um projeto que atua coordenadamente em ensino, pesquisa e extensão (o dito tripé universitário): Pensar a Educação, Pensar Brasil. Envolve diversos professores em trabalho coletivo. E coletivo não é a justaposição de pessoas isoladas, é atuação de grupo, de iguais, é compromisso com o que é comum.

Bota graduandos, pós-graduandos e docentes de diferentes inserções e unidades acadêmicas para trabalhar junto. Para além do “evento”, a programação está integrada com o Programa de Pós-Graduação, ou seja, nesse exato momento compartilho as atividades com o conjunto dos mestrandos e doutorandos da FaE (Faculdade de Educação por estas bandas), em atividade institucional.

E, sim, num auditório lindo! Bem iluminado, com todos os equipamentos de áudio e vídeo funcionando, cadeiras confortáveis, excelente acústica, mais de 250 lugares e, ops, internet de qualidade (numa conexão específica para o evento…).

Ai, ai, ai, chega a doer (o cotovelo!)

CORTE EDUCADOR

Educação "preservada" do corte: "só" R$9 bi

Educação “preservada” do corte: “só” R$9 bi

Porto Alegre (isso porque é prioridade… imagine se não fosse) – A Presidente Dilma e seu assessor Levy acabam de anunciar os cortes orçamentários. Agradam o mercado, tranquilizam os investidores e… quem paga a conta são as políticas públicas, incluindo a área social, com saúde e educação no balaio – ver aqui.

O Ministério da Educação sofrerá uma redução de cerca de R$9 bilhões, “contribuindo” com a economia. E o discurso oficial é que as áreas sociais foram preservadas, priorizadas, tendo a benevolência de cortes suaves… É o discursinho terrorista do mal menor, que podia ser pior, dizendo nas entrelinhas: “não reclamem, fiquem felizes, aplaudam, pois somos do bem”.

VENDENDO EDUCAÇÃO

O mundoe a educação em preto e branco

O mundo (e a educação) em preto e branco

Porto Alegre (futebolizando a educação) – Essa já é velhinha, mas o povo do resto do Brasil não conhece… Fiquei em dúvida se quiseram fazer média com os dois times ou se resolveram detonar com ambos. É que a crise nas duas equipes gaúchas pegou e os “elencos” ou estagnaram ou encolheram em 2015.

E também fiquei confuso se as ditas contratações são de docentes do cursinho ou se estão fazendo alusão ao mercado de trabalho para os egressos do Universitário ou ainda uma relação sinuosa entre entrar no ensino superior e ser contratado.

Mas acho que o mais provável é que toda a confusão se deva ao fato de eu ser um ignorante, que nem gosta muito de futebol profissional (do amador sim, sou amante fiel!), nem do mercado, nem de simplificações, nem de dicotomias, nem de visões binárias – e só consigo enxergar o mundo colorido e repleto de possibilidades…

Tá, tentando entrar no clima local, só mais uma dúvida: dá pra ser isento e ter a cor do anúncio em vermelho?

PENSAR A EDUCAÇÃO

Cidadão brasileiro indígena retirado do STF durante votação das cotas

Cidadão brasileiro indígena retirado do STF durante votação das cotas

Porto Alegre (a luta pelas cotas segue firme – e precisa continuar!) – Pobres, pretos, índios excluídos das universidades federais, está na hora de ocuparem as vagas que são suas por direito. E os privilegiados das classe média e alta tem nas mãos a chance de ajudar a educação brasileira a melhorar e democratizar-se. É um pouco o tom do meu artigo que saiu hoje no Pensar a Educação em Pauta. Agora acho que radicalizei. Ou não?

TETAS DO FIES ENOUGH

Privadas: mamar até quando?

Privadas: mamar até quando?

Porto Alegre (enough = o bastante, o suficiente) – O Ministério da Educação (MEC) derrotou na justiça aqueles que queriam mamar pra sempre no FIES – ver post anterior sobre o tema. Agora os tribunais reconhecem que o MEC é uma mãe bondosa com as privadas (escolas, bem entendido), multiplicando a produção láctea e deixando as bocas pregadas aos seios públicos por longos períodos: “o orçamento do FIES vem crescendo progressivamente ao longo dos anos, sendo que, em 2010, era de 2,4 bilhões e, para o ano de 2015, o volume de recursos alocados alcançou 12,38 bilhões, representando um incremento de 414% em um período de 5 anos” – ver aqui. MEC é Mãe Educadora e Caridosa. Isso é a Mátria Educadora…

O Sindicato dos Mercadores de Educação e Picaretas Afiliados (SIMEPICA) convocou a imprensa pelega de plantão e comunicou: “Estamos fartos, abarrotados, empanturrados, mas queremos mais! Isso não vai ficar assim. Cuidado que a gente te pega na esquina“.

VENDENDO EDUCAÇÃO

Mestres atraentes?

Mestres atraentes?

Belo Horizonte (só em conexão, esperando) – Nada em especial contra o cursinho do Leão. Falo mais dele porque o bicho está me cercando por todos os lados, é agressivo na publicidade, me provoca… Eu só me defendo.

Agora espalharam fotos de seus professores em bancas de jornais de Porto Alegre (é nacional?). Minha primeira reação foi positiva. Estão valorizando seus docentes, tirando um pouco o foco da montanha de conteúdos, dos métodos e apostilas e enfatizando os seres humanos, os profissionais.

Mas não sou um cara de amor a primeira vista… e preciso mais contato, pensar e sentir de novo, construir, entrar em sintonia. Ainda mais quando estou tratando de uma empresa de ensino (você pensou que eu falava do quê?).

Minha segunda reação foi menos positiva. Olha, talvez os caras estejam explorando o fato incontornável de que as mulheres vem se dando melhor na educação formal, seja do ponto de vista qualitativo (as múltiplas avaliações em larga escala acusam essa realidade), seja no prisma quantitativo, pois são maioria crescente. E são mais numerosas em especial onde temos gargalos de acesso, como no ensino médio e na educação superior.  Resumindo, são suas maiores clientes.

Por que exploram as mulheres? Porque estão veiculando imagens de homens jovens (não adolescentes), simpáticos e bonitos. Freud explica (ou só atribuem mais essa ao coitado?). E claro, ainda não vi se o Leão expõe fotos de professores idosos, carecas, com óculos fundo de garrafa (ou eles não contratam estes perfis?). Ou mulheres. Os dois que tenho visto são do mesmo perfil. Se alguém encontrou algo diferente favor me enviar e eu faço uma retratação e peço desculpas por minha imaginação maldosa.

UFRJ DE EXCELÊNCIA

Roberto Leher,eleito reitor da maior universidade federal

Roberto Leher,eleito reitor da UFRJ

Porto Alegre (excelência em democracia) – Funcionários, estudantes e professores acabam de eleger o novo reitor da maior universidade federal do país, a UFRJ (Rio de Janeiro) – ver aqui. Uma instituição de qualidade também é aquela que cumpre suas atribuições sem abrir mão do fortalecimento democrático, do debate franco e aberto.

Parabéns aos cerca de 20 mil eleitores da comunidade da UFRJ por nos mostrar que excelência pode e deve ocorrer com participação ampliada, discussão de ideias e voto de todos os setores envolvidos – aqui as propostas da chapa vencedora. Mais: Leher foi eleito num sistema paritário, onde cada uma das três categorias vale 1/3 dos votos.

Pelas regras burocráticas e autoritárias vigentes (e que muitas universidades seguem servilmente – como a UFRGS), o voto dos professores valeria 70% do total (mais de 2/3).

A apuração ainda não foi concluída, mas fica claro que Leher não seria eleito caso sua instituição se curvasse às regras tradicionais. Por exemplo, ele teve 1.119 votos entre os professores, enquanto a outra chapa concorrente obteve 1.844 votos nesta categoria.

Por outro lado fica evidente o amplo apoio a Leher dos outros dois setores, o que permitiu a sua vitória: conseguiu 2.694 entre os servidores técnico-administrativos contra 1.898 dos seus adversários. E foi acachapante entre os estudantes: 9.420 votos contra 2.692 dos seus opositores.

Resumindo: Leher teve apoio de 38% dos docentes, 57% dos servidores técnico-administrativos e 77% dos estudantes. E na ponderação paritária ficou cerca de 1% a frente da chapa opositora. Este é o resultado do 2º turno das consultas à comunidade (que teve 3 chapas no primeiro turno), e o Conselho Universitário tem o compromisso público de respeitar o resultado das consultas na composição da lista tríplice, obrigatória pela legislação vigente, a ser submetida ao Ministério da Educação (um absurdo rabicho da ditadura, intocado pelos governos de plantão em Brasília…).

PEDAGOGIA UFRGS

Professoras em formação exigem respeito

Professoras em formação exigem respeito

Porto Alegre (estudantes: seres passivos ou ativos?) – Pra quem militou no movimento estudantil como eu a resposta poderia parecer óbvia. Mas com tanta gente que “muda” (de lado) nesse mundo… Ainda mais depois obter diplomas, doutorados, empinam o nariz e passam a enxergar por outros ângulos (melhores que os demais mortais, claro).

Eu certamente mudei bastante, mas não tudo, e preservo minha convicção de que estudantes de pedagogia devem ser abordadas como professoras em formação (Xiiii, o cara não disse nada com nada). Vou tentar me explicar: noto que muitas vezes as estudantes são tratadas como imaturas, irresponsáveis. Suas opiniões não interessam, suas visões são tortas, suas decisões equivocadas, suas ações desastradas. Logo, não se enquadram na categoria das professoras – nem em formação.

Nessa percepção elas são postadas na humilde posição de receptoras de conhecimento, sendo este advindo de entes superiores, seus mestres. São plantinhas que precisam florescer, sendo regadas, preservadas e cuidadas por expertos da universidade. E um dia, quando receberem um diploma, poderão ser consideradas “prontas”.

Assumo que não consigo ser coerente com essa minha convicção o tempo todo, em todas as minhas interlocuções. Sim, fui (de)formado numa sociedade autoritária, meritocrática etc e ainda não me livrei de algumas dessas bagagens incômodas. Mas sigo tentando. E também assumo que carrego nas tintas por aqui, pois as intervenções que desqualificam as estudantes de pedagogia são sempre mais sutis.

Acredito que alguns docentes fazem isso sem maldade alguma, sem intenção de desqualificar. Fazem porque foi assim que aprenderam e vivenciaram, e não sabem fazer diferente. Talvez não tenham parado para refletir especificamente sobre isso, dado o milhão de outros compromissos e prazos que nos atormentam. Mas há também aqueles convictos do papel subalterno das estudantes e que consideram perda de tempo levar a sério os seres inferiores. E aqui as coisas são enrustidas, dissimuladas, não assumidas.

É mais fácil perceber essa abordagem detratora das estudantes pelas omissões do que pelas ações, mais nas ausências do que nas presenças, na não exposição de opiniões mais que na sua explicitação. Ignorar as estudantes e desdenhar delas é a tônica. E há também quem tenha uma posição consistente de atacar e rebater qualquer fala de estudante, sem dar espaço para compreender, acolher.

Estudantes não são minhas iguais nem numa sala de aula e nem nos debates curriculares. Sou um funcionário público, tenho obrigações, funções e responsabilidades que são diferentes, são minhas, e que compartilho com colegas docentes. Minha trajetória também me coloca num ponto diferente do debate, sem dúvida.

Mas estudantes são minhas iguais em dignidade. Elas merecem meu respeito tanto quanto os docentes, sem nenhuma diferença. Merecem ser ouvidas. Suas ideias devem ser consideradas. Eu tenho obrigação de olhar nos olhos delas e responder suas questões, com honestidade. Suas opiniões, por mais absurdas que possam parecer, exigem de mim escuta atenta, compreensiva.  As divergências que tenho com estudantes (e tenho e terei várias) precisam ser expressas com franqueza, mas sempre com a cautela necessária para não transmutar automaticamente minhas diferenças com elas em desigualdades. Ou seja, eu não tenho e não terei razão o tempo todo pelo simples fato de ser docente. E eu posso – e quero – aprender (e muito) no diálogo com elas.

Assim, estudantes de pedagogia não são apenas alunas (no sentido original dos “sem luz”). São professoras em formação. São especialistas em educação num processo de aprimoramento pessoal e profissional. Elas devem tomar posição agora, e não somente após terem um canudo universitário em mãos. Elas precisam ser críticas já, e não apenas nos seus futuros empregos. Elas tem o direito de decidir os seus rumos enquanto caminham, conosco, na graduação da UFRGS. Precisam vivenciar democracia para se fortalecerem como democratas. Elas devem assumir postura docente no seus percursos formativos, no processo em que estão inseridas na licenciatura.

Nós, docentes, temos o dever de apoiá-las nesse processo, oferecendo oportunidades de contato próximo das questões sobre o curso que elas escolheram. E precisamos ser compreensivos o suficiente para saber, de antemão, que elas também vão errar, vão exagerar, vão se omitir. E que nós temos a obrigação profissional de dialogar com elas sobre isso, tentando julgar e punir menos,  questionar e orientar mais. Com respeito, olhos nos olhos, não de cima para baixo.

TETAS DO FIES FOREVER

Amamentação sem fim

Amamentação sem fim

Porto Alegre (mamata pra sempre) – Seria ontem o prazo final para novos pedidos de Financiamento Estudantil (FIES). Mas os “consumidores” se sentiram lesados e pediram bis. E a plataforma do governo falhou, travou, deu xabu e os candidatos impedidos de se inscrever reclamaram, com razão.

A Justiça exigir que o MEC prorrogue o prazo me parece razoável, já que houve problemas no sistema, assumidos pelo Ministério. Agora, deixar sem prazo final é uma doideira. É a defesa da casa da mãe Joana. Entra a hora que quiser. Planejamento? Orçamento? Regras pré-determinadas? Vai tudo pro saco.

O Sindicato dos Mercadores de Educação e Picaretas Afiliados (SIMEPICA) soltou a seguinte nota oficial: “Agradecemos ao Exmo. Sr. Dr. Juiz pela eternas tetas concedidas“.

Quem quiser ver as postagens anteriores sobre o FIES é só ir aqui e aqui.

TETAS DO LEÃO

Escolas privadas mamam no Leão

Escolas privadas mamam no Leão

Porto Alegre (Ok, leoa…Imposto de Renda, cobertor pra rico) – Hoje é o último dia pra quem tem grana nesse país se declarar pro Leão. Tipo assim: “Receita Federal, eu te odeio. Eu e quase 30 milhões que declaramos. É injusto porque os outros 170 milhões de brasileiros não declaram“.

Sim, entre os 170 estão os dependentes dos declarantes. Mas não restam dúvidas de que a ampla maioria não paga, nada, porque não tem renda suficiente pra pagar qualquer coisa…

E a minoria pagante não se cansa de reclamar. Não tem vergonha na cara também, num país tão desigual quanto o nosso, de se recusar a distribuir um pouco do que ganha.

Na educação é exatamente assim. O Imposto de Renda nacional permite abater despesas com educação, financiando indiretamente as escolas privadas. E os papais e mamães de classe média e alta rugem contra o Leão: “Eu pago R$1.000 por mês e só posso abater R$ 3.375,83 por ano!!!?? Absurdo…

Mas o que eles não sabem (e a maioria nem quer saber, jamais, dane-se…) é que o estudante de escola pública de ensino fundamental recebe dos governos R$2.576,36 por ano. Esse é o valor atual do FUNDEB pra essa etapa. Como a maioria dos municípios brasileiros é pobre, o total que o Poder Público investe na educação dessa população não vai muito além disso. Continha simples: nos 9 anos do ensino fundamental, um estudante de escola pública vai custar aos governos R$23.187,24 e o bonitinho da escola privada vai embolsar R$30.382,47 dos cofres estatais.

Se você ainda tem capacidade de se indignar lembre que o IR não cobre todas as despesas mensais dos pimpolhos da classe média e além… Sim, por ano o povo de leite A, tênis Nike, Ipod, espertofone etc garante educação de padrão R$12.000,00 – com patrocínio do Leão – enquanto o rebento da empregada fica com R$2.500,00. Isso é justiça. Isso é concorrência nas mesmas condições…

Resumindo, nessa Pátria Educadora filho de rico vale mais que filho de pobre. Oficialmente! Pior, tendo a educação da maioria com problemas crônicos (quantidade e qualidade) nós seguimos achando razoável destinar recursos do povo para as escolas das minorias, dos abastados, patrocinando o privilégio e garantindo o lucro dos empresários do ensino.

CRECHE UFRGS VAZANDO

Creche fechada: vazamento da caixa d´água

Creche fechada: vazamento da caixa d´água

Porto Alegre (é um rio? é uma piscina?) – Ontem a creche da UFRGS não funcionou. Hoje não funcionará. Um vazamento na caixa d´água – é o que dizem – segue sem solução, as crianças sem atendimento, as famílias se virando pra contornar o transtorno…

Foram dois dias para diagnosticar o problema. Até agora um mistério… de onde vem tanta água?

Se houver alguma mãe ou pai da creche que entenda de fenômenos sobrenaturais, poltergeist ou milagres aquáticos favor comparecer ao local… Ouvi dizer que cientistas de São Paulo já estão a caminho da nossa creche para tentar importar esta criatura miraculosa e aplacar a crise hídrica por aquelas bandas…

 

MEC JANINE MARIA ANTONIETA

MEC esvaziado politicamente???

MEC esvaziado politicamente???

Porto Alegre (o PNE foi pro vinagre?) – Aos que comemoraram termos um Ministro da Educação sem vida político-partidária eis a resposta do mundo real: o cara senta no trono mas não governa! Vai ser marionete de luxo. Office-boy com doutorado da educação federal.

Imagine que gostoso você ser Ministro e não apitar nos principais rumos da sua pasta. Fora o carão de ter que defender baboseiras paridas no prédio ao lado, pelas tuas costas, e com o aval da Presidenta (ver aqui).

Algumas propostas da Secretaria de Assuntos Estratégicos, o trator dirigido por Roberto Mangabeira Unger que atropelou Janine e o MEC:

1) afastar diretores de escolas com baixo rendimento;

2) criação de uma prova de certificação para os professores, em que os aprovados poderiam receber acréscimo salarial (ou redução para os reprovados?);

3) criação de financiamento a cursos de pedagogia e licenciatura que aceitem a implementação de “protocolos curriculares” (neologismo para cabresto curricular?)

Enfim, mais um pacotão. Sem escutar professores. Sem escutar estudantes. Sem escutar entidades e movimentos. Básico de novo governo. Ops, mas houve reeleição… Mais um plano sem conexão alguma com o Plano Nacional de Educação. Igualzinho o que foi o PDE do Fernando Haddad… Planos que são anti-planos, e o PNE roda uma vez mais.

Está mantido o autoritarismo travestido de democrático. O Janine vai tomar chá das 17h, sorrir muito, frequentar bailes de debutantes… enquanto o Mangabeira bota ordem na bagaça.

 

 

CORUJA PEDAGOGA

A mascote da pedagogia precisa ser sempre bobinha?

A mascote da pedagogia precisa ser sempre bobinha?

Porto Alegre (pedagogia ousada, irreverente, transgressora) – Sei lá quem define essas coisas, mas a tradição aponta a coruja como o animal mascote do curso de pedagogia. No geral apresentam o bicho infantilizado, com ar estudioso, de toga, óculos, livros, lápis, postura professoral… E isso demonstra um imaginário sobre as profissionais desse curso. E um arco restrito de pedagogias…

Tá aqui uma típica coruja pedagoga, argh...

Tá aqui uma típica coruja pedagoga, argh…

Pra não dizer que eu só chuto o pau da barraca vou aceitar o bichano como símbolo – ah, tá bom, vai. Mas vou me dar o direito de não retratá-lo de modo bobinho.

Assim, as minhas corujinhas para as postagens sobre o curso de pedagogia terão as formas de como eu vejo e defendo a profissão. Você não precisa gostar, óbvio. Nem quero te converter a nada (abaixo o proselitismo!). E seguirei lutando pela diversidade, pela liberdade, por uma pedagogia comprometida e de lutas, pelo protagonismo das estudantes e das profissionais da educação.

Aguardem meus vôos pelas asas da pedagogia…

VENDENDO EDUCAÇÃO

Leão esperto: faz peneira e diz que aprova mais

Espertinhos: fazem peneira e dizem aprovar mais

Porto Alegre (qualidade terceirizada) – O mundo das instituições privadas de educação é um conto de fadas. Vive-se num universo paralelo, apartado da realidade, longe dos pobres e das maiorias. Mira-se nos mais abastados e nas minorias, no ensino para poucos – o oposto da educação pública, da realidade dura e crua.

O caso da foto acima (ver aqui) não é um ponto fora da curva, mas a expressão de uma lógica bastante disseminada, não só nos cursinhos pré-vestibulares – agora, transformistas, pré-ENEM.

Veja que belo: vendem a imagem de bonzinhos, samaritanos, distribuindo bolsas e descontos. Mais, defensores da meritocracia, dão oportunidades para que os melhores, os mais aptos, mais fortes e inteligentes, abençoados, heróis da resistência, os adaptados, os escolhidos… compartilhem de sua excelência, do “curso que mais aprova nas melhores universidades”.

Olha que interessante: patrocinam uma lógica que exclui a ampla maioria (seja de seus cursos, seja das melhores universidades…), legitimam a privatização do fracasso, que deixa de ser social e público e passa a ser de cada indivíduo e de suas famílias. Armam um funil para onde atraem multidões atrás das bolsas, peneirando alunos já com ampla bagagem – social, econômica, política, cultural etc – estudantes focados, sedentos, bem (auto) centrados, o supra-sumo da concorrência, a nata da escolarização. Resultado: conseguem alta aprovação na educação superior.

Perguntinha tostines (piada só pros mais velhinhos, tipo eu): elas tem os melhores alunos porque aprovam mais ou aprovam mais porque tem os melhores alunos? As privadas tentam nos convencem que a primeira parte é a certa. Em outras palavras, onde reside a qualidade destas instituições?

Uma hipótese, da qual compartilho, é que o sucesso delas não está na qualidade de seus sistemas de ensino – não prioritariamente. O pulo do gato (do leão?) é que elas selecionam seus estudantes. Ensinar os “bons” alunos, preparar os que já chegam até suas escolas preparados é moleza. Mais da metade do caminho já foi percorrido, bastando lapidar suas preciosidades, minuciosamente garimpadas.

E o cômico é que em certo sentido estas instituições praticam o anti-mercado. A concorrência não tem nada de livre, de aberta. Ela é direcionada, fechada, tutelada. Se confiassem em seu taco, se apostassem que seus métodos (sim, eles acreditam nisso), suas instalações, seus professores fossem a chave de seu sucesso elas não precisariam distribuir bolsas, caçar estudantes. Estes viriam espontaneamente, bons consumidores que são, e pagariam pra estudar lá, a custos ainda mais altos. Enfim, dariam mais lucro!

Logo, está pronta a piada: estas magníficas instituições não gostam de lucrar mais? Rarararara!!! Ou só estão protegendo os seus ovos de ouro? Quem? Os estudantes prontinhos, aqueles que seriam capazes de passar em vestibulares e ENEMs mesmo sem os ditos cursos. Mas nestes são treinados, adestrados para sentar, dar a patinha e fingir de morto, o que nosso sistema universitário tacanho adooorrraaaaa.

No exemplo do curso Anglo uma magnífica escolha de mascote: o rei, o sangue azul, o predador, o topo da cadeia alimentar, bem ao gosto de nossa classe dominante e o fascínio dos pequeno burgueses sedentos em ficar com algumas migalhas de nossa sociedade excludente, desigual, injusta…

PARALISAÇÃO GAÚCHA

Sindicato gaúcho na luta pelo piso dos professores

Sindicato gaúcho na luta pelo piso dos professores

Porto Alegre (Sartori, vá se esconder na Tumelero! * tradução ao final) – Amanhã a rede estadual de ensino do Rio Grande do Sul vai parar, por convocatória do sindicato estadual, o CPERS (ver aqui). Nem Yeda Crusius (PSDB) e nem Tarso Genro (PT) pagaram o piso salarial em momento algum de seus mandatos como governadores. José Ivo Sartori (PMDB) parece seguir na mesma balada.

Por lei nacional, hoje nenhum professor com jornada de 40 horas semanais e formação em  magistério de nível médio poderia ganhar, como vencimento básico, menos que R$ 1.917,78 no início de sua carreira. Note-se que receber esse valor não deixa ninguém rico, não é nenhuma grande maravilha, muito menos absurdo. Porém é o que manda a lei, o que a luta dos trabalhadores conquistou, e já é um grande avanço em relação a situação anterior, em que inexistia piso. Mas as docentes gaúchas ganham o equivalente a R$1260,20 – uma vergonha, uma aberração, algo inaceitável.

Meu filho não terá aula amanhã. Estou satisfeito por ele aprender que sua professora luta por seus direitos. E que tem o apoio incondicional de seu seu pai, apesar dos contratempos e da logística doméstica abalada. Força, professoras!!!

* Pros não gaúchos:  o então candidato a governador debochou do piso dos professores, fazendo referência às lojas de materiais de contrução Tumelero, bastante conhecidas por estas bandas, onde a categoria docente encontraria “piso”.

PEDAGOGIA UFRGS

Um curso mutante pela própria natureza

Um curso mutante pela própria natureza

Porto Alegre (processo de reforma curricular) – Currículo é um troço bem interessante. O do curso de pedagogia mais ainda – ao menos pra mim. Constantemente estamos defendendo a manutenção, o aprofundamento e a ampliação de várias questões (disciplinas, abordagens, formas de organização etc) ao mesmo tempo em que há movimentos contínuos de alterações, não só pontuais e cosméticas, mas também de fundamentos e de espinha dorsal. Se o mundo muda, se a educação deve dialogar com a realidade, nada mais esperado que um processo espiral de debates curriculares na pedagogia, criando potencialmente um curso mutante, plástico, aberto, estimulante, excitante…

Lembro que iniciei meus debates a respeito do tema logo no primeiro semestre do curso de pedagogia, como estudante, em 1991… Aprendi demais, participei de diálogos que abriram meus horizontes sobre as licenciaturas, sobre a formação de professores, sobre a educação como um todo. Foi um banho de realidade e de teorias. E tudo isso porque tive a oportunidade de partilhar estes momentos tanto com minhas colegas veteranas quanto com muit@s docentes do curso, com as visões e opiniões as mais diversas. Isso foi um curso a parte, insubstituível na minha trajetória.

Daí que tenho defendido as discussões públicas e conjuntas entre docentes e estudantes acerca da reforma curricular do curso de pedagogia da UFRGS. O processo, em si, é riquíssimo e tod@s, sem exceção, crescem muito ao participar. Ouso afirmar que o processo é múltiplas vezes mais pedagógico do que qualquer resultado que consigamos obter, porque bem mais heterogêneo, amplo, plural e rico do que é possível caber em qualquer grade curricular…

Enumero alguns argumentos para afirmar a riqueza dos debates coletivos e sem segregações:

1) Há docentes do curso de pedagogia que não são pedagog@s, logo, não necessariamente têm uma visão global dessa licenciatura e nem sempre compreendem a importância de áreas distintas da sua (e não defendo exclusividade de pedagogos entre os docentes, muito pelo contrário!);

2) Entre @s docentes pedagog@s a amplíssima maioria (senão tod@s) foram formad@s quando o curso tinha outra lógica, com especializações / habilitações distintas / separadas. Esta concepção foi superada na última reformulação das diretrizes curriculares. No entanto, há colegas que seguem fazendo a discussão como se ainda prevalecesse a lógica das especializações / habilitações – agora coabitando dentro de um único curso;

3) Praticamente tod@s os docentes foram formad@s em licenciaturas que separavam claramente disciplinas teóricas de disciplinas práticas, forjando uma dicotomia que deseduca, rotulando as abordagens e suas contribuições, segregando o que deveria estar em diálogo constante. Ao partilharmos o debate coletivo remamos contra essa correnteza, conhecendo melhor o outro, compreendendo mais sobre as suas abordagens;

4) Praticamente tod@s @s docentes foram formad@s em licenciaturas que isolavam as disciplinas tidas como práticas e os estágios ao final dos cursos, após – e somente após – @s estudantes acumularem “bagagem” teórica para olhar e se relacionar com a realidade. Outra vez, esse paradigma foi ultrapassado pelas novas regras para o curso de pedagogia (2005/2006), mas basta olhar para nossa grade pra identificar esta lógica firme e forte. Para superar isso precisamos afinar olhares e pensar alternativas;

5) @s estudantes ganhariam demais ao compartilhar com os docentes o que estes podem aportar através de suas visões, dúvidas e propostas para um novo currículo. Mas @s estudantes podem aportar um conhecimento que nenhum professor tem: o de vivenciar o currículo atual, passando por diferentes semestres e áreas. E outra inédita contribuição discente reside no fato del@s não se verem eventualmente constrangid@s a defender espaços / créditos para este ou aquele departamento, esta ou aquela área específica.

Enfim, os tópicos acima são apenas alguns de muitos outros que caberiam aqui… Certamente voltarei várias vezes ao tema – prometo!

Mas sigo acreditando na riqueza do debate público e conjunto entre docentes e discentes. Penso ser um desperdício e um empobrecimento se apartarmos as discussões, tendo professores de um lado e estudantes de outro.

E seguirei prestigiando todos os espaços de debate presenciais, ao vivo e a cores. Mas vou usar este blog para seguir dialogando tanto com minhas colegas docentes quanto discentes, na certeza de aprender demais com ambas.

GREVE EM PERNAMBUCO

Greve em Pernambuco

Porto Alegre (toda força às companheiras pernambucanas!) – Tava eu tomando meu cafezinho em Olinda e ao bater papo com uma colega com quem compartilhei a mesa fui atualizado da situação salarial e da carreira local. O povo lá está em estado de greve há mais de um mês, pois o governo se recusa a pagar o piso salarial para todos professores. Amanhã, dia 17/04 (6a f)  tem assembleia da categoria e desejo que tenham condições de seguir firmes na sua justa luta – mais informações aqui.

 

O cameraman é de araque, o equipamento uma porcaria, mas a fala é excelente, acreditem! No vídeo acima, a Profa. Magna Katariny de Moura, diretora de Imprensa e Comunicação do Sindicato do Trabalhadores em Educação de Pernambuco (SINTEPE), explica o rolo em que o Governo Estadual está enfiando a categoria.

Alguns tópicos. Pela lei do Piso Salarial Profissional Nacional, todo o magistério do país teria direito a um reajuste de 13,01% em seus vencimentos básicos, em 2015. Porém, o governo pernambucano aprovou lei na Assembleia Legislativa concedendo este percentual para apenas 1770 professores (de um total de 49.800!). Estes são os professores que possuem formação em magistério de nível médio (o antigo Normal). A dita lei prevê ainda o enorme reajuste de 0,89% para outros 2289 professores, os quais possuem formação em nível de graduação. Estes magnatas passariam a ganhar muuuuito mais que os colegas com nível médio: R$15,00 a mais!!! Pros demais – a maioria! – reajuste ZERO.

O que estão fazendo no estado de Paulo Freire – que deve estar se revirando no túmulo – é o desmantelamento do plano de carreira, reduzindo (e quase suprimindo) os avanços salariais por formação.

E pra fechar a situação tenebrosa, a rede estadual de Pernambuco possui em seus quadros 44% de professores precários, contratados temporariamente. Absurdo dos absurdos, mas infelizmente não é exclusividade pernambucana, pois outros governadores (incluindo RS e SP, por exemplo), fazem economia há anos com o orçamento da educação, não pagando direitos trabalhistas, tratando professores como algo descartável, gerando instabilidade nos sistemas de ensino.

O Ministério Público já está questionando a lei aprovada e ficamos aqui torcendo para que nossas colegas consigam reverter a barbárie em Pernambuco.

Mas eu não tomei café com a Magna e sim com a simpática Profa. Roza Maria Pedra Rica, diretora da Secretaria de Aposentad@s do SINTEPE. Agradeço Magna e Roza, desejando muita força às companheiras do Pernambuco!

Tá aqui a Roza comigo – partilhamos uma mesa de cafezinho e o papo gerou este post

Tá aqui a Roza comigo

 

PIB DO VERHINE

Bob Verhine: análise profunda do PIB

Bob Verhine: análise profunda do PIB

Porto Alegre (eita semana corrida – chega logo, feriado!) – Tô devendo mais notícias de Olinda… Na mesa que eu citei há alguns dias (ver aqui), a primeira fala foi do Prof. Robert Verhine (UFBA), conhecido por Verhine ou, para os íntimos, Bob. Nosso norte-americano baiano fez uma dissecação do debate acerca do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação, conforme consta no Plano Nacional de Educação. Foi uma excelente aula do que é o PIB, como é calculado, as principais fontes de informação, formas de interpretação etc.

E falou muito, muito mais, sempre com seu típico sotaque gringo, e com uma clareza impressionante de ideias. Eu é que vou distorcer um montão ao me atrever a resumir suas análises…

No PNE, a meta 20 estipula o seguinte: “Ampliar o investimento público em educação pública de forma a atingir, no mínimo, o patamar de 7% (sete por cento) do Produto Interno Bruto (PIB) do País no 5º (quinto) ano de vigência desta Lei e, no mínimo, o equivalente a 10% (dez por cento) do PIB ao final do decênio”.

Da minha torta mirada Verhine fez três fortes críticas ao modo como o PIB está figurando no PNE:

1) visão corporativista da área da educação: ao propor o aumento do PIB para este setor consequentemente o país terá que reduzir aportes do PIB em outros setores. A pergunta é: de onde sairá este recurso? Quem vai perder? Olhar só para a educação pode prejudicar o país de modo mais geral.

2) meta inalcansável: ao estipular 10% do PIB para a educação pública, através do aumento do investimento público, teríamos nos proposto algo impossível de ser conseguido dadas as condições econômicas brasileiras. E uma meta impraticável traria uma desmoralização não só da meta como comprometeria a credibilidade de todo o PNE.

3) o PIB esconde a necessidade de mais recursos para a educação: ao apontar apenas um percentual do PIB estaríamos dificultando uma visão mais objetiva das carências existentes, não mostrando quanto, exatamente, em termos de recursos financeiros, precisamos aportar para uma educação melhor e/ou para executar o PNE.

E o professor Robert não se ateve a criticar, elencando propostas para aperfeiçoamento do PNE no que toca ao financiamento da educação. Para ele, além do percentual do PIB, o Plano deveria incluir outros parâmetros para ampliação do financiamento, entre estes um percentual de receitas públicas (nos moldes da vinculação constitucional pra educação) e também valores absolutos a serem aportados (como faz o FUNDEB).

Pessoalmente acho que Verhine está correto em suas críticas, mas não vejo grandes problemas nas duas primeiras. Já na terceira eu tenho acordo total e absoluto, o mesmo valendo para as propostas. PIB é uma excelente bandeira política, mas uma péssima forma de garantir mais verbas para a área, difícil de ser verificado, controlado, dependente de muitos fatores…

Se tiver fôlego voltarei ao assunto e às outras falas da mesa nos próximos dias.

PENSAR A EDUCAÇÃO

African-American-College-Graduates-from-HBCU-Hampton-University

Porto Alegre (e as lutas continuam) – Mais um artigo meu foi publicado no informativo “Pensar a Educação em Pauta”. Dessa vez abordo as cotas nas universidades – ver aqui. Nado contra a correnteza, por certo. Mas estou do lado de quem se dedica ao mesmo “esporte”, pois o editorial deste mês trata da redução da idade penal, um texto primoroso com o qual tenho absoluta concordância – ver aqui.

Do meu artiguinho vai aqui só um trecho, pois meu “contrato” é de exclusividade e o artigo na íntegra você só vai ler por lá:

“/…/Alguns dos argumentos elencados (não todos) contra as ações afirmativas são que elas não resolvem, estruturalmente, nem a desigualdade social, nem nossa distribuição de renda concentradora, nem tampouco melhoram as escolas públicas de educação básica. E também não dão conta de superar o racismo, o preconceito e a discriminação. Concordo totalmente com estas opiniões! /…/”

E veja como um recorte mal intencionado pode distorcer uma argumentação…

ANPAE OLINDA

Bob (falando), Theresa (refletindo), Júnior (arrumando) e Andréa (curtindo) – e Janete (atrás da Theresa)

Bob (falando), Theresa (refletindo), Júnior (arrumando) e Andréa (curtindo) – e Janete (atrás da Theresa)

Porto Alegre ( tentei postar de Olinda, mas tive problemas técnicos e voltei…) – Socializando reflexões sobre as atividades no Simpósio da ANPAE (ver programação aqui). A primeira mesa que participei foi sobre “Financiamento da educação no Brasil: desafios do PNE”. Debates super bons!!! O trabalho foi coordenado pela Andrea Barbosa Gouveia (UFPR), tendo como palestrantes Robert Verhine (UFBA), Theresa Adrião (UNICAMP) e Luiz de Souza Júnior (UFPB).

Em suma, temos avanços na legislação, mas também lacunas e dificuldades. Ter o PIB no PNE é bom, mas não suficiente. A recessão econômica indica problemas sérios, inclusive com potencial neutralização de nossas conquistas. E as ações do governo federal em apoio à iniciativa privada, em especial no financiamento, são preocupantes (e crescentes!).

Vou postar em seguida alguns tópicos das falas dos colegas. Quem se interessar prepare-se para detalhes sobre financiamento da educação. E aqueles que não gostam do assunto pulem os próximos posts