Monthly Archives: outubro 2015

PROFISSIONAL?

Única? Exclusiva? Inédita?

Única? Exclusiva? Inédita?

Porto Alegre (diferencial de mercado) – Deixa eu ver se entendi… Em nossa galáxia existe apenas uma “preparação profissional para o ENEM/UFRGS”. Ah, bom! E agora temos uma universidade com ENEM próprio, diferente dos demais ENEMs, o que exige um trabalho exclusivo.

E é um curso profissional. Profissionalizante? Claro, os estudantes fazem o cursinho uns 3 anos seguidos, logo, merecem um diplominha, não?! E se é profissional já não seria melhor ir direto pro “mercado” ganhar dinheiro ao invés de frequentar faculdade mais uns pares de anos?

Tudo límpido agora.

Maaassss, ainda me restou uma dúvida: onde são formados os profissionais que dão aulas na preparação profissional para o ENEM/UFRGS? Fiquei instigado a fazer uma conversão na carreira e dar aula em cursinho. Qual o nome dessa licenciatura? Tá na lista do Sisu?

DETONANDO O ENEM (6)

Tri o quê?

Tri o quê?

Porto Alegre (TRI esquisito) – Hora do gabarito, divulgado ontem. Todos querem saber quantos acertos (e erros) tiveram. Mas, ai, ai, ai. Todos vão ter que esperar (roer as unhas) até… sabe-se lá quando pra saber sua pontuação. Astrólogos dizem que em dezembro ou janeiro os candidatos saberão exatamente como foram nas provas.

Dois pontos em que o ENEM merece apanhar, levar uma surra:

  1. Não haver cronograma com a data exata de divulgação os resultados finais;
  2. O uso da enigmática Teoria de Resposta ao Item (TRI).

Por partes.

Cronograma

Super coerente com toda lógica e mística que envolve o exame não haver uma data para publicizar a pontuação dos candidatos.  E um excelente exercício de tortura, de sadismo, submetendo nossa juventude a uma incerteza desnecessária.

Alguns dirão: “Ah, mas eles precisam aprender a controlar suas emoções”. Sim, e não faltam oportunidades para adolescentes e jovens experimentarem tais sentimentos em suas vidas cotidianas (seus babacas!). Então: pra mim isso é desumano, desleal, sórdido, torpe – to gastando o verbo de montão e ainda não consigo expressar toda minha indignação com tamanho desrespeito com nossa juventude (pedagogia da tortura?).

Sim, com uns 7 milhões de provas pra corrigir pode ficar difícil precisar exatamente as dificuldades do processo. ok pra isso. Mas não é a primeira vez que a prova é aplicada, sendo possível estimar bem o andar da carruagem. Aí coloca uma margem de erro, superfatura a data e publica. Se quiser ensebar um pouco bota uma cláusula dizendo que o INEP pode alterar o cronograma em caso de hecatombes, blablabla.

TRI

A candidata “Sabidona” acertou 150 questões “objetivas”. O candidato “Afiado” acertou 160. Logo… logo nada! Quem disser que tirou mais pontos, hoje, está mentindo. Ou pior, não tem a mínima ideia de como funciona a prova – quer tentar entender clica aqui.

Isso porque a metodologia utilizada não é a clássica em que cada acerto vale uma pontuação já conhecida. E onde questões costumam ter a mesma pontuação. Ao contrário! No ENEM os candidatos não sabem quais os valores das questões. Mas saibam: as questões são categorizadas em diferentes níveis de dificuldade – e não valerão necessariamente a mesma coisa para candidatos diferentes. Esotérico, não?!

Yes, o desempenho geral do candidato é contabilizado de modo que, por exemplo, errar questões consideradas muito fáceis e, ao mesmo tempo, acertar questões tidas como muito difíceis, podem alterar o peso delas na pontuação final. Isso porque a TRI tem um mecanismo pra se defender dos famosos chutes. Claro, a dita metodologia não anula o acerto (por chute ou não) de uma questão dificílima em um candidato que errou várias fáceis. Mas o valor da dificílima não será o mesmo de outro candidato que acertou também as fáceis… Russo ou mandarim é mais compreensível que isso, né?!

Mas quero afirmar que eu considero o TRI uma excelente metodologia. Muuuuito melhor que a lógica tradicional, zilhões de vezes mais inteligente, com vantagens enormes pra medir conhecimentos, comparar candidatos, fazer análises entre diferentes edições etc.

E ainda assim reforço que usar essa metodologia é uma fragilidade colossal do ENEM. Por quê? Porque ninguém conhece a TRI. Porque ninguém entende esse troço. Porque mesmo tentando explicar ainda fica uma interrogação colossal na testa de quase todo mundo. Duvida? leia o artigo didático de 3 pagininhas aqui.

Porque, no final das contas, as questões ditas objetivas parecem subjetivas pra cacete (ops, perdão, escapou). Há senões demais. É preciso crer na metodologia, Faz-se necessário um ato de fé pra achar que o resultado é justo. E nesse campo movediço, a sociedade pode cogitar que a maracutaia impera. Ou que Deus é que não ajudou. Ou qualquer outra teoria da conspiração, todas batendo contra a transparência do processo avaliativo.

Resumindo: a técnica é boa (acreditem em mim! Rezem por mim, chorem por mim…) mas ela é alienígena, ininteligível. E isso mina a sua legitimidade, o que é grave. Do ponto de vista sociopolítico gera um vácuo, algo que só iluminados compreendem.

Uma prova que distribui vagas universitárias, bolsas, diplomas de ensino médio, empréstimo bancário subsidiado (dito FIES), cura frieira (ah não? esta última ainda não é uma função do ENEM… ainda) não pode ser incompreensível. É muito arriscado, gera suspeição, é deseducativo, é despolitizante.

Mas essas são só minhas opiniões. Não acreditem em mim. Acreditem no ENEM. Amém!!!

CONCORDO COM MERCADANTE!

Também concordo com Mercadante: acreditem!

Também concordo com Mercadante: acreditem!

Porto Alegre (eu tô me endireitando?) – Mercadante, o Ministro da Educação, esteve hoje no Senado para uma audiência pública, convocada a pedido da Senadora Ana Amélia (PP/RS). Das falas divulgadas até agora tenho três acordos totais com o titular do MEC:

  1. o Plano Nacional de Educação (PNE) deve ser o eixo estruturante das ações do Ministério da Educação (ver aqui);
  2. o Sistema S deve arcar com parte dos custos de ações educacionais, como o Pronatec e o Ciência sem Fronteiras;
  3. a volta da CPMF seria uma forma simples e boa de arrecadação – e de quebra atacaria caixa-dois e sonegação fiscal (ver aqui tem até áudio da entrevista; dois minutinhos bem esclarecedores).

Não sou adepto do quanto pior melhor e não tenho problema algum em aplaudir pessoas com quem tenho discordâncias.

Acredito que o Mercadante não levará estas suas frases às últimas consequências – seu passado o condena… Mas acho importante ele dizer. E torço para que se esforce e faça valer suas palavras.

DETONANDO O ENEM (5)

Tema para redação: 2,2 milhões de vagas ociosas

Tema para redação: 2,3 milhões de vagas ociosas

Porto Alegre  (uma prova de redação) – Como hoje é dia nacional da especulação acerca dos critérios de avaliação que serão cobrados na análise dos textos dos candidatos vou entrar no clima e listar os meus para o seguinte tema: por que sobram 2,3 milhões de vagas ociosas no ensino superior privado do Brasil?

A redação deveria abordar informações básicas sobre a educação superior no Brasil, suas principais políticas e lógicas de funcionamento, utilizando inclusive estatísticas elementares disponíveis no site do mesmo INEP que faz o ENEM (as últimas são de 2013). Assim, um bom texto deveria apontar alguns dos 13 itens abaixo (o número é uma singela homenagem):

  1. A educação superior de nosso país é uma das mais privatizadas do mundo;
  2. O setor público atende apenas cerca de 1/4 dos estudantes, estando a ampla maioria nas privadas;
  3. Esta pequena proporção da intervenção estatal não é casual e serve aos interesses de quem lucra vendendo educação, gerando pouca concorrência;
  4. As instituições privadas oferecem aproximadamente 4,5 milhões de vagas para ingressantes anualmente;
  5. Porém, destas, apenas 2,2 milhões vão ser ocupadas por efetivamente;
  6. Logo, mais da metade das vagas privadas ficarão ociosas (2,3 milhões);
  7. Dois dos fatores que ajudam a entender tal descalabro: o Governo Federal tem sido, por décadas, permissivo com os privados, liberando as autorizações para abrirem vagas; o problema é que nosso país é desigual demais e a maioria do povo não tem dinheiro pra pagar mensalidades;
  8. A situação só não é pior porque o Governo Federal é uma mãe (e uma família inteira) para o setor privado;
  9. As tetas do Estado brasileiro bancam FIES, Prouni e abatimento de imposto de renda que garantem milhares de matrículas nas privadas;
  10. O ENEM é utilizado como critério de seleção para alguns dos mimos anteriores para a iniciativa privada – logo, esta sequer precisa se preocupar em avaliar seus clientes-alunos;
  11. Os empresários e mercenários da educação são ingratos, pois não poupam os governos do PT, os quais criaram o Prouni e investiram no FIES como nunca antes na história desse país;
  12. O Ministério da Educação gasta milhões de reais com propaganda em rádio e televisão pra divulgar o ENEM, falando de todos os benefícios que ele aporta à Pátria Educadora, mas nunca divulgou pelos mesmos meios a situação da educação superior brasileira;
  13. Logo, você não sabia de alguns (ou muitos) dos pontos listados acima e fez o ENEM disputando um jogo que você não conhece direito, mas que bota nas tuas costas o peso de vencer e ainda se posta como justo, democrático, fonte eterna de oportunidades etc.

Tá bom assim? Acha que vai tirar uma boa nota?

Dado que as respostas, contatos e participações foram grandes neste fim de semana – e que eu fiz promessas que ainda não consegui cumprir – seguirei batendo no ENEM pelos próximos dias.

DETONANDO O ENEM (4)

Os candidatos são melhores que o ENEM

Os candidatos são melhores que o ENEM

Porto Alegre (carta aos candidatos) – O ENEM não te avalia. Ele tenta medir alguns aspectos da tua vida – e ignora muitos outros.

Mesmo se for tratar apenas do que você aprendeu na escola o ENEM é restrito. Por exemplo, você teve aulas de educação física, não?! E isso pode ter sido muito importante pro teu desenvolvimento, pra tua saúde, pras tuas relações. Você aprendeu sobre o teu corpo, testou habilidades, teve contato com regras e lógicas diferentes, trabalhou em coletivos etc. O ENEM não avalia nada disso. Mas isso também é você.

E teve também educação artística ou congêneres. Você pode ter tido contato com desenho, pintura, escultura, teatro, dança, música e mais. Esses aspectos podem ser essenciais pra tua identidade, pra tua sensibilidade, pra como você se relaciona com o mundo. Mas o ENEM tá se lixando pra isso.

Por outro lado nós aprendemos diversas outras coisas também pra fora da escola. Nós fazemos e vivemos experiências nem sempre abordadas nas salas de aula, mas que são fundamentais. O que dizer de solidariedade, companheirismo, respeito à diversidade? Bobagens? Então, o ENEM pode tranquilamente avaliar como magnífico um@ candidat@ egoísta, mesquinh@, incapaz de ajudar alguém que não seja el@ mesm@. E uma pessoa racista, homofóbica, machista, preconceituosa tem todas as condições de ser “campeã do ENEM”. Isso porque essa prova não tem estes valores como critério de avaliação. E ao fazer isso, por omissão, contribui para desfavorecer o trabalho destas questões na escola e na sociedade – um desserviço.

E pra te avaliar seria necessário considerar outras perspectivas, muitas delas mais profundas e que te definem – mesmo que o ENEM não queira. Participação política – partidária ou não. Você age para mudar a tua realidade e disputar o poder? Ou é um expectador? Você tem e preserva boas amizades? Ou é um ogro? Você tem suas crenças? Religião é algo especial na tua  existência? Note que você pode ter várias respostas para as questões anteriores. Mas é difícil negar que estes são aspectos valorizados por muita gente, por muitos grupos, por setores da sociedade. E impossível negar que o ENEM dá as costas para o que você é e faz nestes âmbitos.

Tudo numa frase: você é muito melhor que o ENEM.

Essa prova não te traduz, não define o que você é, não muda a tua vida. Ela pode ser importante pra algumas coisas, sim. Mas não deixe o ENEM te enquadrar. Não se reduza a ele. Não deixe ele te detonar.

Relaxa, vai na boa e mantenha a cabeça erguida frente a essa provinha. O ser humano é maior do que qualquer exame ou avaliação. Ainda não criaram um instrumento para medir a humanidade. Mas você faz parte dela – prove isso.

DETONANDO O ENEM (3)

Pública é bom e eu gosto

Pública é bom e eu gosto

Porto Alegre (gratuita, laica, de qualidade) – O sonho dourado dos candidatos do ENEM não é apenas uma vaga no ensino superior. É estudar em universidades públicas! Motivos vários,  alguns aqui: são gratuitas, têm status e, melhor de tudo, seus cursos são bem avaliados, gozando de qualidade.

Nesse grupo temos desde instituições que usam o ENEM como única forma de seleção passando por outras que utilizam essa prova como parte da nota / avaliação para o ingresso – com ou sem vestibular.

As instituições públicas podem ser federais, estaduais ou municipais. As federais estão presentes em todos os cantos do país, tendo reputação geralmente bem positiva (58% das matrículas públicas totais). As estaduais não são tão disseminadas por todo território nacional, havendo presença residual em algumas localidades. São super bem conceituadas em algumas unidades da federação, mas também mega precárias em outras (32% das matrículas). E as municipais são casos raros no Brasil – mas existem! (10%)

Pepino: o Brasil sofre de uma ultra privatização do ensino superior, logo, poucas vagas públicas (só 26% das matrículas totais). Em números: apenas cerca de 600 mil. Contas, continhas: 7,7 milhões de “eneiros” para 0,6 mi vagas. Isso significa que, na média, de cada 10 candidatos… nenhum vai entrar numa pública. Aumentando a lente: de cada 100 “eneiros” haverá vaga para… quase 8.

O ENEM não criou a privatização. Também não tem culpa da rede pública acanhada. Mas legitima essa realidade, não questionando-a. Pior, termina por culpabilizar os candidatos por seu fracasso, como se houvesse justiça social e igualdade de condições entre os concorrentes. Privatiza o caso, tratando a não obtenção de vaga como um problema individual. Esquiva-se de politizar a questão, fugindo de abordar nossa situação como um problema social e público!

DETONANDO O ENEM (2)

Enem e a inclusão...

Enem e a inclusão…

Porto Alegre (Semvagolândia, a metrópole do ENEM) – Essa prova atenta contra a inteligência do país. Afirmar que ela democratiza a Educação Superior é uma piada de mau gosto. Dados bem simples comprovam o contrário. E os dados não são meus, são do governo, do MEC.

O mesmo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) que organiza o ENEM também faz Censo da Educação Superior. Ou seja, levanta uma montanha de informações, as quais deveriam servir pra gente conhecer a realidade… Pois, pois…

Parte dos dados do referido Censo ficam acessíveis através das Sinopses Estatísticas da Educação Superior – ver aqui. A última disponível é a de 2013. Os números atuais devem ser diferentes, mas a ordem de grandeza deve ser bem parecida, mantendo o raciocínio.

Segundo o INEP, que é um órgão do Ministério da Educação, podemos ver que o Brasil teve cerca de 2,7 milhões de ingressantes em cursos superiores naquele ano. Ops, continha rápida: 7,7 milhões fazendo ENEM e só 2,7 vão se matricular, logo, 5 milhões vão ficar sem sala de aula no ano que vem.

Desenhando: de cada 10 candidatos do ENEM, 7 não estarão matriculados em nenhum curso superior em 2016. Assim, a cidade de Semvagolândia (ver aqui) se torna a terceira metrópole do país, menor apenas que São Paulo e Rio de Janeiro!

Irônico o ENEM ser visto (e vendido) como um instrumento de inclusão na Educação Superior quando ele é justamente o oposto: a ferramenta que exclui milhões!!!

 

DETONANDO O ENEM (1)

Quem saber das maravilhas do enem? www.mec.gov.br

Quer saber das maravilhas do Enem? www.mec.gov.br

Porto Alegre (lavagem cerebral…) – O dia da salvação está chegando: este é o esperado fim de semana do ENEM. No rádio e na TV não tem como escapar das propagandas do governo. Um puta saco…

Então, se você ainda não foi convertido à seita das avaliações miraculosas, se não reza pro Santo ENEM todas as noites é só ler/ouvir/ver qualquer veículo de comunicação e terá acesso a mil guias, milhão de dicas, zilhão de reportagens.

E eu daqui vou mandar meus torpedos pra dizer que o mundo não é cor de rosa. Serão algumas postagens durante sábado e domingo, logo, se não gostar do assunto ou de minhas ideias é simples: me esqueça, não entre aqui e nem no meu facebook.

Vamos lá: de cada 10 candidatos ao ENEM 4 certamente não estudarão no ensino superior em 2016. E não é por falta de capacidade, necessariamente. É que não há vagas para eles. São 7,7 milhões de inscritos no ENEM e cerca de 5 milhões de vagas oferecidas no país. Logo, 2,7 milhões ficarão fora da Educação Superior.

Esses “sem vaga”, se reunidos em uma cidade (Semvagolândia?), formariam o quinto município mais populoso do país, só perdendo em quantidade de habitantes para São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Brasília. Enfim, uma enormidade. Um mega desperdício de energia. Um show sádico para detonar estimas e egos de jovens. Estes, vítimas das propagandas enganosas e floridas do MEC…

 

PELÉ 75

Exemplo real pra Educação Superior...

Exemplo real pra Educação Superior…

Porto Alegre (rei? sou republicano!) – Hoje Edson Arantes do Nascimento completa 75 anos. E há exatos 40 anos (1975) ele se formou no ensino superior… Parabéns! A imagem (e a realidade) de nossos jogadores de futebol é de pessoas pouco escolarizadas, até ignorantes… Deve ser por conta dessa enorme diferença que Pelé faz propaganda de faculdade, né? rarara – ver aqui. Em EAD, claro, bem coerente – e compatível – com a vida de um atleta profissional.

Então, o “rei” é licenciado em Educação Física, em Santos / SP – veja aqui. Sabia não? Eu também não… Formado junto com o ex-goleiro Emerson Leão – um cara super educado…

Dois bons exemplos de que diploma superior… ah, hummm. Complete a frase você…

1975 - Formado em Educação Física

1975 – Formado em Educação Física

UFRGS TEM MEDO DA USP?

Cadê a livre concorrência?

Cadê a livre concorrência?

Porto Alegre (santa coincidência) – Por três anos consecutivos as provas do vestibular da UFRGS são agendadas nos mesmos dias do vestibular da USP. Haja conjunção astral!!!

Escrevi sobre isso em janeiro, especulando sobre a nossa autoproclamada “melhor universidade do Brasil” estar fugindo da concorrência direta com a Universidade de São Paulo – ler aqui.

Pois bem, a USP anunciou seu cronograma no dia 03 de agosto passado (ver aqui), exatamente um mês antes da UFRGS – ver aqui. E mais uma vez o “destino” proíbe – na prática – que os candidatos concorram a ambas instituições, tendo em vista que as provas de seleção ocorrerão nos mesmos dias.

A UFRGS marcou as provas entre os dias 10 e 13/01/2016 já sabendo que sua colega paulista realizaria a segunda fase da seleção entre 10 e 12/01/2016. Nestes dias a universidade do sul aplicará provas em 4 cidades escaldantes, enquanto a instituição do sudeste torturará jovens em 28 municípios.

Onde fica a tão badalada meritocracia nessas horas? Os estudantes não deveriam ter o direito de optar? A UFRGS não teria o direito de concorrer aos candidatos da USP?

Pergunta: quem ganha com isso? Hipótese… A milionária arrecadação de inscrições da UFRGS? E também tem a tese da “invasão paulista”, conhece? Não?! Leia aqui.

Pra quem não sabe… Promovo uma campanha ampla e irrestrita, interinstitucional anti-vestibular. Se tiver paciência ou curiosidade é só buscar “vestibular” aqui no blog e verá todas as bobagens que já escrevi a respeito. E sigo na luta!!!

MAIS FÉRIAS ESCOLARES (1)

Vacances = férias, em francês

Vacances = férias, em francês

Porto Alegre (adoramos férias! Deveríamos ampliá-las!!!) – Uma emenda de feriado como hoje é um alívio, não?! Poderíamos criar outros. Não, nada de santos e quetais religiosos – defendo Estado laico…

Advogo usarmos as férias de modo mais racional. Nosso alívio em dias como hoje só existe porque nos submetemos a longos períodos de trabalho intenso – logo, geramos um processo cansativo.

E não venham se queixar das leis, pois elas são inocentes nesse caso. Inexiste legislação que obrigue concentrarmos as férias em poucos meses. Assim, o “geramos” citado acima significa que optamos por fazer assim, por tradição, é verdade, cultura escolar. As quais podem ser alteradas.

Digo isso porque as redes de ensino definem os períodos de férias concentrando as paradas em poucas ocasiões, no meio do ano (julho) e no fim / início (dezembro a fevereiro).  Por que não ter mais férias? E não vou defender aqui a diminuição do número mínimo de dias letivos (200, segundo a LDB) – apesar de ver com bons olhos isso… Estou falando em “espalhar” as férias ao longo do ano, de modo a não ficar muito tempo sem alguns dias para descansar, respirar, relaxar.

Não estou inventando a roda; estou copiando. Quando morei na França eu adorei a organização das férias escolares por lá. Em resumo, as escolas francesas, além das longas férias de verão (2 meses, em julho e agosto) possuem outros 4 períodos de férias no ano, com duas semanas cada – veja aqui .

Atenção, porque eles começam as aulas (ano escolar) em setembro de um ano civil – por exemplo, 2015 – e terminam no início de julho do ano seguinte (no exemplo, 2016). Não proponho isso para os nossos trópicos! E eles dividem o país em três zonas, as quais possuem calendários um pouco diferentes entre si – ver aqui. Também não defendo nada nacional, padrão, goela abaixo… pois somos uma Federação.

Considero essa multiplicação das férias um ideal a ser perseguido, por respeitar a necessidade de ficarmos na boa, coçando o saco (ou qualquer outra coisa). Também é bom porque tem implícita a concepção de que a vida é mais que escola, que estudo, que trabalho. Acredito em tudo isso! E também há razões econômicas – mas isso fica pra outro post.

Esclareço que não sou fã de algumas fortes características do sistema escolar francês (pra mim, conteudista, hierarquizado, formalista – mas isso também é assunto pra outro dia). E fico há alguns anos-luz de acreditar em transposições ou cópias acríticas e descontextualizadas.

Proponho refletirmos sobre as razões pelas quais nos aferramos a algumas formas de organizar nossas escolas, sem sequer aventar outras possibilidades. E acredito que conselhos estaduais e municipais de educação (bem como conselhos universitários) poderiam discutir e deliberar por alternativas mais interessantes que nosso modelito (pré)histórico.

Gostou da proposta de mais férias? Não?! Ok, voltarei ao assunto, pois eu adoooro e acredito muuuito nisso…

CURY E O SISTEMA NACIONAL DE EDUCAÇÃO

Tina, Cury e M.Beatriz Luce - gente boa de debate!

Tina, Cury e M.Beatriz Luce – gente boa de debate!

Florianópolis (nada de praia. Só chuva e salas de trabalho) – Não tenho procuração de ninguém. E aqui vou tratar minhas versões e opiniões sobre as provocações feitas pelo Prof. Carlos Roberto Jamil Cury em sua fala sobre o Sistema Nacional de Educação, na Reunião Nacional da Anped, anteontem.

Cury explica que – enfim! – o SNE tem existência jurídica. O que não é pouco. Isso configura uma vitória de grupos e movimentos progressistas. Agora precisa “passar da existência para a consistência”. Ou seja, por enquanto o SNE é apenas uma expressão no texto legal, não uma realidade.

O Prof. Carlos Roberto se disse “surpreso” com a aprovação tranquila do SNE, dado o histórico conflituoso da temática, ocorrendo fortes resistências à sua inserção em propostas anteriores, notadamente nas disputas havidas para a confecção da Constituição Federal de 1988, na LDB/1996 e no PNE/2001.

Discorreu sobre algumas destas resistências, segundo diferentes grupos / forças. O governo federal seria contra por medo de ser postado no papel de “caixa”, de financiador das políticas brasileiras, responsabilizando-o pela materialidade das redes subnacionais. Os governos estaduais temeriam ter sua autonomia federativa violada, com o poder central definindo e/ou interferindo – indevidamente – na seara alheia. E a educação privada se oporia ao SNE aterrorizada com a perspectiva de ter sua liberdade tolhida por uma ação pública fortalecida e centralizada. Estes apelidavam o SNE de “sovietão”, em menção pejorativa à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) – nossaaa! Quanto tempo não falava disso, fico até emocionado, rarara.

O prof. Cury lembrou o fato de que o SNE não constava do projeto de lei encaminhado ao Congresso Nacional pelo Poder Executivo, leia-se MEC / Casa Civil. Ou seja, o governo não apostou suas fichas e não tinha como prioridade o SNE. Este foi incluído na tramitação parlamentar por força de movimentos, dentro do parlamento, em seu favor. Logo, o SNE não foi um filho desejado pelo governo.

E, não obstante diversos aspectos salutares acerca da existência do PNE, Cury afirmou o seu “pessimismo da inteligência” quanto ao SNE. O contexto conservador contribuiria para sérias dificuldades em sua configuração democrática.  E o veto não explícito – “oculto” – ao financiamento do PNE, vide os cortes orçamentários em curso, comprometeriam sua existência.

Cury segue sendo uma referência para mim em suas reflexões, em sua franqueza e clareza de análises e opiniões. E tenho muito mais concordâncias do que divergências com suas posições. Mas parece que tenho diferenças com ele a respeito do SNE. Por exemplo, tendo a concordar com ideias de Dermeval Saviani, inscritas em sua tese de Doutorado, de 1971, quando eu nem era nascido… O Sistema já existia, em processo de construção, apesar de não estar explicitado em lei. Mas isso já é história pra outro post.

JANINE, O “TÉCNICO”

Fraco assumido, foi omisso na greve federal

Fraco assumido cai fácil

Porto Alegre (“técnico”? rarara!!!) – Renato Janine Ribeiro foi Ministro da Educação por 177 dias, menos de 6 meses (*06/04/2015  +30/09/2015). Foi o 5º ocupante do MEC durante a gestão Dilma (antes Haddad, Mercadante, Paim e Cid). Foi o 3º deste mandato, que começou há 272 dias.

No momento de sua escolha alguns se entusiasmaram, saudando um “técnico” no comando do MEC, um cara da área da educação, um acadêmico, blá-blá-blá. Taí o que acontece quando botam uma ovelha pra cuidar do galinheiro e defendê-lo dos lobos. Morre sem ter feito nada expressivo em sua posição.

Faltou força, faltou articulação, faltou poder. E, lamento desiludir alguns, mas governos são espaços de poder, palco de lutas e disputas, arena da Política (maiúscula) e da política (minúscula). Botar um analfabeto nestas questões para gerir o MEC (ou Secretarias Estaduais ou mesmo Municipais de educação) é a certeza dele ser frágil.

A Presidenta, neste caso, emprestou o seu cacife político, a sua força para o Ministro. Ela não ganhou nenhuma nova força ou apoio no mundo partidário / congressual com o ingresso do Renato. Bem, só dá pra emprestar o que se tem… Quando ela mal tem forças pra se segurar na cadeira…

Janine foi uma cereja no bolo, um enfeite. O que ele deu ao governo foi glamour: o “doutor”, o “filósofo”, o “intelectual”. Que não entendia (entende?) nada de educação!!! Verdade que Haddad, Mercadante, Cid e outros também não sabiam lhufas de educação quando entraram no MEC. Mas eram / são gente que transita no mundo político, logo, estão em casa, se adaptam, sabem onde achar força, como disputar poder.

Renato não disputou quase nada – e também não fez quase nada, portanto. Mas disso falarei em outro post – os feitos do Janine…

E Dilma colocou um fraco no MEC para controlá-lo. Uma carta grande disponível na mão, podendo descartá-la quando precisasse sem gerar nenhuma crise. Usar um grande ministério para acomodar interesses a qualquer momento, fortalecer sua posição político partidária / congressual. Eis o que ocorreu.

Gostaria bastante que o caso Janine nos ensinasse a não ficar contente com “técnicos” nos governos. Porque são fracos eles cumprem papel “político” pra quem tem poder. Estes “técnicos” são fortes candidatos a marionetes, excelentes para massa de manobra, aposta na desilusão e na inércia. Ou são mentirosos, e se escondem atrás de uma aura técnica para fazer a política convencional – e despolitizante.